04/07/2015

Cobertura de guerras, desastres e epidemias requer iniciativa e coragem do repórter

Por Luana Freire


Foto: Bruno Martins
Para fazer "coberturas extremas" o interesse tem de partir do jornalista e não do veículo de comunicação em que trabalha. É o que aconselham Patrícia Campos Mello, repórter-especial da Folha de S. Paulo e Luiz Antônio Araújo, editor do jornal Zero Hora, que discutiram o trabalho de reportagem no exterior no 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, hoje, em São Paulo.

"O repórter tem de correr atrás, mostrar para seu editor o que quer e qual sua proposta", afirma Patrícia, que no ano passado, ao lado do repórter fotográfico Avener Prado, ficou por doze dias fazendo a cobertura especial sobre a epidemia de ebola, em Serra Leoa.

Com a crise financeira das redações, tornou-se fundamental ser proativo, de acordo com os jornalistas. "Se vocês forem esperar alguém mandá-los para algum lugar, vão esperar sentados", afirma Patrícia.


Foto: Bruno Martins
A princípio, quando a epidemia de ebola estava no início, a Folha não quis ir até Serra Leoa, conta a repórter. No entanto, com o agravar da situação no país, a jornalista teve sinal verde da direção do jornal para a viagem.

Para Patrícia e Luiz, na cobertura internacional é essencial que todo jornalista tenha um "fixer" – uma pessoa de confiança que fale o idioma local, saiba os costumes, onde levar o repórter, seja uma espécie de "tradutor de culturas", como define Patrícia.

Antes de viajar, ela entrou em contato com um grupo de jornalistas de Serra Leoa por meio do Facebook, e foi pela rede social que conseguiu o 'fixer' e seus personagens. "O Facebook é uma ferramenta maravilhosa, faz você ter contato com o mundo todo, foi o que me ajudou", conta.

Além disso, ela também fez contato com o embaixador, a equipe dos Médicos sem Fronteiras (MSF) e  pesquisou muito sobre o assunto. Patrícia e Avener se preveniram antes de partir, tomaram um coquetel de vacinas e fizeram tratamento preventivo contra a malária, por a doença ter os sintomas parecidos com o ebola, Centro de Humanizações do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

A maior parte da cobertura sobre o ebola aconteceu em Kailahun, no leste do país, onde os Médicos Sem Fronteira montaram um hospital no meio da selva para atender pacientes com a doença.

Em Kailahun, a repórter entrevistou uma médica italiana, que estava trabalhando no hospital do MSF, e contava ter pesadelos com os doentes. "Ela dizia: 'Todas as noites eu sonho que estou atendendo um paciente e alguém vem e vomita no meu pé ou estou em atendimento e minha luva fura. O ebola é uma doença muito ingrata'".

Patrícia, diz ter subestimado a situação da epidemia na África no início, ao contrário de seu colega de cobertura. No entanto, as coisas mudaram ao passar dos dias, conforme foi vendo pessoas doentes e perdendo toda a família.

"Quando você vai fazer essas coberturas, tudo o que quer, é conhecer as pessoas, saber de onde elas são, criar empatia, mas como fazer isso se você tem que ficar a um metro e meio de distância das pessoas? É muito complicado", diz Patrícia. "As pessoas são legais, as crianças são lindas, mas você tem medo", desabafa.

Araújo recentemente produziu o especial "Califado do Terror", em que foi à fronteira da Síria com o Iraque para investigar as origens do ISIS (Estado Islâmico no Iraque e na Síria). O jornalista também usou grupos do Facebook para conhecer jornalistas e "fixer" locais antes de partir. A iniciativa de se aventurar, assim como com Patrícia, partiu dele. "Tem que ter foco e interesse em saber por onde começar", diz. 

Um dos apuros de Araújo no país foi quando marcou de entrevistar um capitão do Exército Sírio. Ele se assustou ao encontrar várias pessoas o esperando para interrogá-lo no local. "Quando cheguei na casa, estava lotada e então começaram a fazer perguntas sobre o meu celular, minha vida, falavam coisas do Brasil em árabe", conta. Para Araújo, ser brasileiro pode ter o favorecido nesse momento. No interrogatório, ele foi questionado sobre o que faria em situações semelhantes no Brasil. "Mas eu levei a entrevista até o final e respondi todas as perguntas", conta.

O editor do Zero Hora, aconselha aos jornalistas que desejem seguir seus passos a estudar idiomas e se aproximar da cultura do país. Patrícia conta que, se o repórter só falar inglês, terá dificuldades, pois só falará com um extrato da população, o que pode distorcer toda a cobertura.

Os repórteres concluíram com um conselho: os jornalistas devem se preparar para o pior antes de embarcar em uma viagem para uma região de conflito. Desconfiar de tudo e de todos é outro fator, mesmo que seja o próprio "fixer", o dono do hotel, o Estado, os entrevistados.




O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

O jornalismo investigativo pode ajudar o trabalho policial

Por Helena Carvalho Mega

O repórter não autorizou a divulgação da sua imagem
Foto: Isabel Silva
Com perseverança, o jornalismo investigativo pode auxiliar no trabalho policial. Prova disso é o famoso caso do ex-médico Roger Abdelmassih, que foi um dos homens mais procurados do Brasil, preso em agosto de 2014. Após mais de três anos foragido, a sua captura no Paraguai foi fruto de uma cooperação entre jornalistas da TV Record, o Ministério Publico e a Polícia Federal, que trocavam informações a respeito do seu paradeiro.

Um dos principais jornalistas envolvidos no caso foi Leandro Sant'Ana, da Record. No final de 2009, ele estacionou um furgão disfarçado com adesivos de um candidato político na frente da casa de Roger para observar a sua rotina, enquanto o ex-médico respondia ao processo em liberdade. O que se dizia na época era que Roger estava com um problema de saúde, mas Sant'Ana filmou o ex-médico recebendo diversos amigos e circulando em carros de luxo. 

A partir da sua fuga do país em 2011, diversos relatos indicavam que Abdelmassih poderia estar em países como o Líbano, Suiça, França e Estados Unidos. A partir disso, Sant'Ana começou uma nova etapa de apuração, ligando para as pessoas que diziam tê-lo visto, mas a maioria das informações era equivocada. 

Obcecado pela história, Sant'Ana não desistiu da apuração e conversou com algumas das 39 mulheres vítimas de estupro por Roger. Elas tinham diversos documentos e procurações relacionadas ao Roger, que poderiam dar vestígios da localização do ex-médico. Tive acesso a contas telefônicas onde aparecia o código de área de diversos países. Pedia para meus chefes me mandarem para a Europa, mas houve uma reviravolta quando a polícia descobriu uma linha telefônica segura na qual a família Abdelmassih se comunicava no Brasil". 

Sant'Ana e sua equipe de reportagem continuaram rastreando o paradeiro do ex-médico e passaram por locais como a cidade de Jaboticabal, no interior paulista, e a fazenda da família Abdelmassih no interior de Mato Grosso, e, por último, seguiram uma correspondência em Foz do Iguaçu. De lá, chegaram ao Paraguai e com a ajuda de autoridades internacionais, finalmente conseguiram capturar o Roger, que usava boné e tinha raspado o bigode. Não usava, porém, disfarces. "Esse não foi um trabalho que realizei sozinho", conta Sant'Ana. "Estou longe de ser um dos caras mais acadêmicos que existe, mas tenho uma coisa que poucos tem: muita garra e força de vontade. Essa é a maior lição que tiro dessa história toda", afirma o jornalista. 

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.


Para jornalistas, documentos da Lava Jato na web são exemplo de transparência

Por Camila Alvarenga


Foto: Phillipe Watanabe
Das várias inovações que a investigação da Operação Lava Jato trouxe, uma foi a publicação dos documentos do processo na internet. A mando do juiz do caso, Sérgio Moro, todas as informações referentes ao processo estão disponíveis no site do Tribunal Regional Federal - 4ª Região, algo, até então, exclusivo ao Supremo Tribunal Federal (STF). Isso possibilitou à imprensa acompanhar de perto o caso, justamente por possuir muitas e detalhadas informações.

"Existe uma novidade aqui, até muito atacada por quem está sendo investigado de vazamento de informação, mas boa parte das informações vindas a público não são fruto de vazamento", comentou Ricardo Brandt, jornalista do Estado de S.Paulo, que se reuniu ao lado dos repórteres Rubens Valente, da Folha de S.Paulo,e Vladimir Netto, Rede Globo, para comentar os bastidores da cobertura da operação Lava Jato. A discussão aconteceu no último dia do 10º Congresso de Jornalismo da Abraji, um dia após a palestra de Moro no evento. 

A disponibilidade das informações na web também mudou a forma como os jornalistas passaram a fazer suas coberturas, "A gente tem que, no dia a dia, fazer o próprio trabalho de ficar monitorando os e-procs [Processo Judicial Eletrônico]. Quem acha que eu fico na porta da Polícia Federal esperando o delegado sair para falar com ele está errado, na verdade eu fico trancado no quarto, que nem um louco, lendo processos", continuou Brandt, que mantém cinco cadernos e um HD com pastas de tudo de relevante que encontra. Ele afirmou ser um trabalho "mais de suor do que com quem falar". Mas, para ele, não deixa de ser necessário saber com quem falar e no quê acreditar durante a apuração.

Valente, repórter em Brasília, ressaltou a importância de se ter acesso às informações do caso: "A maior ameaça à democracia brasileira é o sigilo judicial, porque acaba tendo uma casta da sociedade que sabe de muitas coisas que o resto da população não sabe. Numa sociedade corrupta como a nossa, isso é uma bomba. É um atentado à democracia". 

Os inquéritos mantidos em sigilo sobre a Operação Lava Jato são exceções e geralmente dizem respeito a investigações em andamento. De acordo com Valente, é trabalho do jornalista encontrar fontes que possuam informações que não estão disponíveis. 

No entanto, na tentativa de conseguir algo exclusivo e dar um furo, corre-se o risco de publicar informações equivocadas ou, como o próprio juiz Moro definiu em sua palestra, tirar os dados de suas devidas proporções. "Algumas pessoas ficam na expectativa, muitas vezes não tem a informação correta e, sob pressão, inventam coisas. Se não tem ninguém para interromper, isso vira uma bola de neve", colocou Brandt. 

O acesso e suas facilidades não significam, contudo, que não existam dificuldades. Os documentos disponibilizados são muitos grandes e, às vezes, apenas um parágrafo de tudo o que está ali é notícia. Sem mencionar informações sigilosas ou incompletas que dificultam o entendimento do caso. "Tem muitas histórias de dificuldade e de luta, mas é uma cobertura da qual dá orgulho de participar", finalizou Netto.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Congresso joga luz sobre o primeiro caso de jornalista esportivo assassinado no Brasil

Por Keytyane Medeiros


Beatriz Santos
Na véspera, de completar 3 anos do assassinato do jornalista esportivo e apresentador Valério Luiz Oliveira, o advogado e filho da vítima, Valério Luiz Oliveira Filho revelou detalhes sobre o caso durante o painel "Violência contra jornalistas" realizado no 10º Congresso de Jornalismo Investigativo promovido pela Abraji.

O caso aconteceu na cidade de Goiânia-GO, em julho de 2012, quando após uma série de críticas aos membros da diretoria do Atlético Goianiense, em especial, contra o acusado Maurício Sampaio. Valério foi assassinado com sete tiros enquanto saia do trabalho, à luz do dia. "Foi uma cena bastante simbólica do ponto de vista negativo porque a execução se deu na frente da rádio onde ele trabalhava e de onde proferia suas críticas."

O pai de Valério tinha 35 anos de carreira, trabalhou em emissoras de rádio e televisão e vinha de uma família de jornalistas esportivos. Foi o primeiro caso de assassinato à jornalistas esportivos no país. De acordo com o advogado, o jornalismo esportivo vai além dos jogos, partidos e tabelas. No caso do futebol, também existem interesses políticos e financeiros envolvidos e em casos como este, Valério Filho afirma que "existe um padrão em crimes contra jornalistas: todos acontecem porque eles afrontam verdadeiras máfias".

Neste sentido, Valério Filho afirma que os crimes são mais comuns em cidades do interior ou contra blogueiros e jornalistas de veículos com circulação municipal ou regional. Segundo ele, quanto maior a visibilidade do jornalista, menos encorajados os mandatários do crime se sentem. Apesar disso, a maior parte dos casos de agressão e violência não são apurados ou acabam engavetados. Segundo o relatório anual de violações à liberdade de expressão organizado pela ONG Artigo 19, foram registrados 55 casos de violência envolvendo agressão, homicídio, tortura e ameaças de morte contra jornalistas e blogueiros durante o ano de 2014.

O caso de Valério Luiz tem cinco suspeitos indiciados pela Justiça e atualmente o processo aguarda julgamento no Tribunal de Justiça de Goiás. O advogado acredita que a melhor solução é tornar os acontecimentos públicos e realizar mobilizações sociais. "A melhor solução e a melhor defesa, com certeza é a publicidade dos casos". 

Liberdade de expressão


Em situações de violência e repressão contra jornalistas por parte do Estado, Valério Filho acredita que se a Justiça fosse mais eficiente não seria necessário tamanha mobilização da sociedade exigindo posicionamento das instituições. "Os jornalistas de modo geral não se entendem como classe, mas como intelectuais. Isso enfraquece as ações em um caso como este. Instituições e veículos de comunicação tem que se comprometer mais."

O ideal é que o jornalista possa ir até onde for necessário, mas é preciso se questionar qual o papel e a responsabilidade do Estado e das instituições na proteção dos profissionais de comunicação e da liberdade de expressão. "Até onde as estruturas do Estado podem ir para proteger e julgar esses casos?", questiona.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Repórter que descobriu detenções secretas americanas encerra 10º Congresso da Abraji

Por Sara Abdo e equipe


Foto: Phillippe Watanabe
A repórter e escritora americana Dana Priest, do The Washington Post, encerrá hoje as mais de 30 horas do 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, que reuniu durante três dias em São Paulo, alguns dos maiores nomes do jornalismo. Vencedora do Pulitzer de 2006 pela extensa investigação sobre locais secretos de detenção dos EUA ao redor do mundo, Dana deu início à sua palestra comentando técnicas e procedimentos usados em mais de 30 anos de trabalho no mesmo jornal.


Uma das apurações mais longas realizadas por ela se deu em 2007, no Walter Reed Hospital, que trata veteranos americanos da Guerra do Iraque. Dana disse ter entrado nas instalações em inúmeras ocasiões, ao longo de quatro meses, sem nunca ter sido perguntada sobre sua identidade. "Eu simplesmente fui até lá. Não como uma mãe. Eu não teria mentido, mas ele nem me perguntaram. Quando eu via um segurança, eu me afastava e ficava em silêncio, quase invisível", contou. A reportagem revelou as péssimas condições do local e resultou na abertura de investigações e na renúncia de autoridades importantes envolvidas na gestão do local.

Um ano antes, ela havia revelado a existência de pelo menos 30 líderes da Al-Qaeda presos em instalações americanas espalhadas em diversas partes do mundo. A revelação foi um duro golpe de credibilidade para a Casa Branca e deixou à mostra diversas violações do direito internacional cometidas pelos EUA, além das já conhecidas em Guantánamo. "Comecei a questionar se as ações contra o terrorismo eram úteis, se funcionavam, se auxiliavam", disse.

Apesar de realizar o trabalho de investigação de maneira "camuflada", como no caso do hospital, Dana disse fazer questão de ter fontes, cultivá-las e, às vezes confrontá-las. Dana deu como exemplo, a exploração de diferenças existentes entre as diferentes divisões das forças armadas. Ela deu a dica de "se aproveitar dos rachas burocráticos para conseguir informações".

A cobertura da exposição de Dana e de todo o congresso foi feita por uma equipe de 20 estudantes de jornalismo e 10 recém formados que participam do Repórter do Futuro. A conclusão da edição foi feita apenas minutos depois do início da palestra da repórter do Washigton Post.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

"O poder não está na informação, está na informação compartilhada", dizem cineastas

Por Luan Ernesto Duarte

Foto: Beatriz Sanz
A indústria da comunicação tem crescido vertiginosamente e junto com ela surgiram novas formas de comunicar. A cineasta e publicitária Flavia Moraes, vencedora da Palma de Ouro do New York Film Festival, Clio Awards, Cannes Lions International e Fiap, colocou o pé na estrada para entender essas mudanças. Percorrendo redações e agências de inovação no Brasil e no mundo, registrou a opinião de especialistas na área da comunicação. O resultado disso ela apresentou no 10° Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji neste sábado (4).


The Communication (R)evolution é um estudo sobre o futuro da comunicação em forma de projeto multimídia, encomendado pelo grupo RBS. No ano de 2013, durante 12 meses, Flavia conversou com comunicadores, geeks, futuristas, filósofos, pesquisadores, jornalistas, universitários e historiadores para compreender quais são os reflexos dessas mudanças no comportamento dos consumidores e produtores de informação. Com mais de 360 horas de entrevista, esse registro histórico apresenta 11 premissas sobre essa revolução.

O mundo, junto com a comunicação, se reinventa de uma forma diferente, plural, colaborativa e totalmente compartilhada na rede. Com essas novas iniciativas, tem surgido jovens empreendedores, startups, coletivos de jornalismo e outros grupos independentes que estão modificando os paradigmas atuais da comunicação. "O poder não está na informação, está na informação compartilhada", enfatizou Flavia. 

"O projeto nasceu com o intuito de solidificar essa transformação e focar os diversos pontos de vista em mundo cada vez mais plural", explicou. A cineasta reforça a ideia de que é cada vez mais necessário se desprender de certos anacronismos, já que o mundo está sempre se atualizando. O documentário ainda está sendo atualizado e terá mais algumas entrevistas e outras novidades. O conteúdo está totalmente disponível na web, apresentando as novas tendências de comunicação com 11 princípios que a revolução propõe:

#BETRUE
"Transparência é a palavra-chave nos meios de comunicação atualmente", destacou. Atualmente, nada mais é privado e cada vez mais a transparência é demandada nos meios de comunicação. Ser verdadeiro é a primeira característica para viver em uma lógica de rede. 

#BETRUSTED
Ser confiável. No jornalismo, uma palavra a ser repetida exaustivamente é "credibilidade". A premência de ter credibilidade é um dos princípios que regem, não somente o mundo do jornalismo, mas, sobretudo, o mundo da comunicação em geral. 

#BEPART
Flavia ressalta que "o discurso eloquente não é mais aceitável. O poder está na proximidade, na construção do diálogo, no ouvir o outro." O conceito de participação é uma forte tendência nas startups, nas empresas e nos coletivos que trabalham com a interatividade. 

#THINKPLURAL 
A verdade é multifacetada. Existem diversos pontos de vista, o mundo deve conhecer todos os ângulos de uma informação. "Criar condições para um pensamento plural é gerar conceitos abertos", pontou Flavia. 

#THINKMOBILE
Mobilidade. Smartphone, tablets, notebooks. A revolução não está somente na tecnologia, mas está no ideal de interação. 

#BEBETA 
Um conceito encorporado no Vale do Silício, o beta é algo que está sendo sempre atualizado. A lógica beta incentiva a cultura do feedback e pressupõe questionamento, mudança e autocritica. 

#THINKAHEAD
Pensamento à frente é inovação e aprendizado. 

#THINKHIGHER 
Flavia comenta sobre a importância de ter um propósito: "a atitude de pensar alto gera impactos positivos. Eleve o pensamento atribuindo aos seus propósitos significados mais nobres", ressaltou. 

#BECOLLABORATIVE 
Os projetos colaborativos são o resultado dessa transformação. A revolução cultural mudou o mercado de trabalho. Uma das grandes tendências é fazer alianças, criando redes de colaboração operando em rede. 

#BEINTUITIVE
Antes da inteligência virtual, vem a intuição artificial. "Nós, como seres humanos, devemos recuperar a nossa intuição. Nosso pensamento deve ser imediato e menos previsível", salientou. 

#BEUSEFUL 
Utilidade. Flavia finaliza com essa última premissa que "não adianta ser verdadeiro, confiável, participativo, mobile, beta, inovador, colaborador e intuitivo, se não houver utilidade em tudo isso".



O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Referentes del periodismo político brindan herramientas para superar el fla-flu partidario

Por Ángela Reyes*

Foto: Isabel Silva
José Roberto Toledo, Bob Fernandes y Kennedy Alencar, tres referentes del periodismo político en Brasil, dieron en Abraji distintas herramientas para evitar el fla-flu partidario en la cobertura: mantener los principios de equilibrio, independencia e imparcialidad que rigen la actividad periodística, utilizar los datos numéricos como fuente de información además de los diálogos con las fuentes y someter a discusión el la regulación de los medios y su financiamiento.

De Toledo, editor de Estadao Dados y presidente de Abraji, se dedicó a la cobertura del área política desde 1989. En ese tiempo, el trabajo era radicalmente diferente al de ahora porque "estaba basado estrictamente en las relaciones personales, de confianza", contó durante su intervención. Su carrera tuvo un gran cambio cuando decidió dedicarse al periodismo de datos. De Toledo considera que a través de la recolección y análisis de datos numéricos "se puede cubrir política de manera impersonal" y combatir el fla-flu partidario.

Los datos permiten "explicar las macrotendencias de la política", pero no reemplazan a la cobertura tradicional, aseguró De Toledo. Ambas técnicas deben complementarse. En el caso del trabajo con datos los periodistas deber tener un cuidado extra, reconocer sus propias tendencias porque "las personas se pueden defender, pero los números no (...), entonces uno tiene que ser su propio crítico".

Entre las múltiples herramientas para hacer periodismo de datos que existen hoy en día, De Toledo destacó Google Trends, que permite analizar la cantidad de búsquedas que realizó la gente sobre un tema específico a lo largo del tiempo. En la campaña de 2010, O Estadao encontró que en setiembre crecieron exponencialmente las búsquedas del tema "Dilma (Rousseff) aborto". Detrás de esta tendencia macro había una explicación: los evangelistas, y luego sectores del catolicismo, comenzaron a decir que Rousseff legalizaría el aborto si resultaba electa. Este hecho no solo repercutió en las búsquedas de Google sino en la popularidad de la entonces candidata en las encuestas.

Para Kennedy Alencar, "la principal herramienta para entrentar el fla-flu partidario es la información", a la que considera "unidad básica del periodismo". La fórmula, según él, sería: información, análisis y opinión, pero más información que análisis y más análisis que opinión. Junto a la formación está la necesidad de aportar contexto a la cobertura.

Todo esto requiere periodistas con formación, que lleguen a la fuente con el conocimiento suficiente para poder extraer información de calidad. El objetivo último de esta estrategia es hacer frente al principal desafío del periodismo político actual: mantener el equilibrio, la independencia y la imparcialidad, principios que deben respetarse sin excepción.

El flu-flu puede evitarse siguiendo además uno de los principios fundamentales del periodismo de todos los tiempos: utilizar el interés público como criterio para decidir qué publicar.

Bob Fernandes, comentarista político en TV Gazeta de Sao Paulo, considera que poner fin al fla-flu partidario requiere una discusión en profundidad sobre la reglamentación económica de los medios. "Tenemos posibilidades infinitas desde el punto de vista técnico, pero una concentración extraordinaria desde el punto de vista comercial" que está estrechamente vinculada al fla-flu partidario, dijo durante su presentación en Abraji.

"Los periodistas deberíamos exigir ese debate", dijo Fernandes, y rechazó que una regulación pueda generar censura tal como sostienen ciertos grupos de influencia. De acuerdo a su visión la censura y autocensura ya existen en la actualidad y están relacionadas a quiénes son los dueños de los medios y quiénes los financian. Con sorpresa incluso, Fernandes advierte que en "todos los lugares civilizados" existen reglas y organismos de contralor de los medios de comunicación, pero en Brasil no.

* é jornalista uruguaia convidada a acompanhar o Congresso pela Unesco.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Em crise, jornais impressos ainda têm recursos 'sugados' para manter suas versões digitais

Por Karine Seimoha

Foto: Isabel Silva
A crise levou os jornais impressos ao seu volume morto. Assim, as publicações em papel estão tendo que "emprestar" receita e esforços para tentar alavancar suas versões digitais. A análise foi feita pelo jornalista Leão Serva, colunista da Folha de S.Paulo. Ele traçou um panorama sobre a qualidade dos jornais impressos e dos jornais digitais, em aspectos como a qualidade das notícias, a formação dos jornalistas incumbidos de cada matéria e a composição da receita do veículo. Também abordou a nova forma de comportamento de algumas grandes publicações feitas em redes sociais.

 A crise levou os jornais impressos ao seu volume morto. Assim, as publicações em papel estão tendo que "emprestar" receita e esforços para tentar alavancar suas versões digitais. A análise foi feita pelo jornalista Leão Serva, colunista da Folha de S.Paulo. Ele traçou um panorama sobre a qualidade dos jornais impressos e dos jornais digitais, em aspectos como a qualidade das notícias, a formação dos jornalistas incumbidos de cada matéria e a composição da receita do veículo. Também abordou a nova forma de comportamento de algumas grandes publicações feitas em redes sociais.

No 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, realizado em São Paulo, pela Abraji, Serva disse que "todos os jornais estão perdendo audiência. Porém, nunca se leu tanta notícia". Uma das possíveis explicações para isso é o fato de muitos jornais terem submetido suas redações digitais às redações do jornal impresso. E, segundo ele, essa atitude é como querer promover a Queda da Bastilha sob comando militar.

Explicou que, neste momento, vários jornais do mundo estão fazendo sucesso e não integraram as suas redações, por exemplo, The Guardian. Há contato, há troca de informações, há circulação de reportagens, mas não há subordinação.

Na atualidade, muitos veículos têm optado por postar notícias em redes sociais que, mesmo não sendo as notícias mais importantes do dia, geram mais compartilhamento, e assim, atraem mais cliques, mais compartilhamentos, que atraem mais interesse do público. Juntamente com isso, vem a baixa qualidade dos comentários de leitores, com agressões e mensagens de ódio e intolerância. Para Serva, é importante esclarecer que "esses comentários não são de natureza jornalística, não são feitas por jornalistas, não estão, portanto, ligadas à qualidade da informação. Os comentários de redes sociais são de natureza 'de rua', cultura de rua".

Marcelo Beraba, diretor da Abraji, citou a experiência feita pelo jornal americano Texas Tribune, que determinou os setores que pretende cobrir. A iniciativa começou com cerca de dez jornalistas e já conta com mais de 30 profissionais.

"A integração das redações custou um investimentos que elas não estavam preparadas para fazer. Os jornais em papel, já secos, estão fazendo uma transfusão de sangue, tendo de ajudar seus jornais de internet", avaliou Serva. Disse ainda que parte da crise do jornalismo impresso se deva ao fato de este ter se relacionado intimamente demais com a publicidade, e "ninguém acredita mais em publicidade, que é a base dos meios de sustentação dos jornais impressos".

Ponderou que a solução é não atrelar as redações de impresso e digital, pois com os novos meios digitais, a publicidade percebeu que não precisa da intermediação de veículos de informação. Na internet, o usuário tem acesso à marca por outras formas, como páginas em redes sociais. Mas sim, o jornal deve ter sua sustentação baseada em circulação. "O jornal do futuro é o jornal do passado, ou seja, um jornal que se sustente em circulação, dependente apenas de seu público. Pequenos jornais, pequenas redações", pois foi a publicidade quem criou o modelo dos atuais jornais, dos meios de comunicação de massa.

Para ele, o que determina a qualidade da notícia é a formação do jornalista. Muitas vezes, o jornalismo digital peca por que os jornalistas designados para os jornais digitais têm menos tempo de formação que os jornalistas dos jornais de papel.

A boa notícia que isso traz, segundo Serva, é que no mundo em que estamos vendo, onde muita gente vê a morte do jornalismo, é que acaba com a proletarização do jornalista. Acaba com a linha de montagem de jornais (como uma linha de montagem de veículos ou uma fábrica de sabonetes), onde cada jornalista é alienado ao todo do produto final. "Se não termina, pelo menos, reduz a proletarização. Essa é a boa notícia. A má notícia é que isso reduz o emprego também."

Finalizou dizendo que "o jornalista não pode ser generalista. Deve ter um aprofundamento teórico sobre as áreas em que for cobrir. Os cursos de jornalismo que temos no Brasil dão apenas uma base generalista. Parte deveria ser dado para todo o curso, e parte deveria ser dado de acordo com a demanda de cada aluno, de acordo com a área que ele quer atuar". Ele disse ainda que, em tempos de jornalistas generalistas, um dos maiores desafios é preservar a ética no processo de construção das notícias, e para isso, é preciso formar profissionais liberais, empreendedores, não mais apenas máquinas para manter as fábricas de notícias.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

'Liberdade não pode existir apenas para uma categoria de pessoa', diz sobrevivente do Charlie Hebdo

Por Natacha Mazzaro

Foto: Phillippe Watanabe
O chargista Laurent Sourisseau, um dos sobreviventes do ataque  ao jornal satírico francês Charlie Hebdo, que deixou 12 mortos e 11 feridos, em janeiro, em Paris, disse hoje que o atentado não foi apenas contra os profissionais que fizeram desenhos sobre o Islâ e Maomé, mas contra a democracia e a liberdade em si. Cercado de um forte esquema de segurança, Sourisseau falou a jornalistas que participam do 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji, em São Paulo.

"Fazer humor é algo extremamente sensível. Quando se fala em Islã, pior ainda", disse o cartunista, conhecido como Riss, aos estudantes e jornalistas presentes. "O Charlie Hebdo pagou um preço alto por isso."

Atual diretor do jornal, Riss contou que não costumava haver problemas com os desenhos sobre islamismo que o Charlie Hebdo veicula desde os anos 1990, mas que as charges sobre Maomé publicadas em 2006 nunca foram perdoadas. Para ele, o ódio de extremistas motivou os dois atentados que o jornal sofreu: O primeiro, em 2011, incendiou a redação e o último, em janeiro de 2015, resultou na morte de 12 pessoas, incluindo 8 integrantes da equipe.

O ataque aconteceu durante uma reunião de pauta do jornal. Dois terroristas entraram na sala e começaram a atirar. Riss, ao ver a porta da sala abrir, jogou-se no chão. Levou um tiro no ombro, mas prendeu a respiração e fingiu-se de morto. Foi assim que o cartunista saiu com vida, ao contrário de seus amigos e ícones do desenho francês: Wolinski, Cabu, Honoré, Tignous e Charb, o antigo diretor. A organização terrorista Al-Qaeda se responsabilizou pelo atentado e os autores foram identificados como os irmãos Cherif e Said Kouachi.




O cartunista defendeu o trabalho do Charlie Hebdo, alvo de críticas por sua linguagem satírica. "A caricatura é muito mais do que ela mesma, por isso ela é importante para a democracia". Ele explica que o jornal não tem o interesse de fazer desenhos unicamente sobre o Islã ou Maomé, mas sim, tem a liberdade de abordar esses assuntos se os fatos da atualidade exigirem.

"A liberdade não pode existir apenas para uma categoria de pessoa. Ela existe para todos. Se as pessoas não a exercem, a liberdade desaparece." Para ele, outros veículos usam pouco o tipo de humor do Charlie Hebdo. "Nos sentimos isolados. Sobre Maomé, somos os únicos".

Desde sua criação, o jornal segue dois princípios: anticlerical e ateu. Riss explica que os religiosos, muitas vezes, não entendem e levam para o lado pessoal. Ele disse que não pode haver confusão entre a crítica à religião e as pessoas que a seguem.

Ele ainda se recupera de alguns danos causados pelo atentado. Quando perguntado se estava otimista para o futuro, Riss não pensa duas vezes antes de responder. "Não. É preciso manter aqui uma cara de otimista, mas no fundo não estamos."

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Participantes avaliam o 10º Congresso da Abraji

Por Ruam Oliveira

Foto: Bruno Martins 
O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, que aconteceu nos dias 2, 3 e 4 de julho em São Paulo teve 72 painéis com os assuntos mais discutidos na mídia nacional e internacional. Com cerca de 120 palestrantes e 600 inscritos, o evento mesclou mesas, seminários e cursos para mais de 800 participantes - incluindo os palestrantes - de diferentes Estados, e do exterior.

"Eu vim para ficar um dia e estou ha três, adiei minha ida porque achei tão interessante, tem tanta coisa pra ouvir e para aprender com jornalistas mais jovens e que fazem coisas diferentes", conta a jornalista Miriam Leitão, da Globo. Ela enfatizou que todo jornalismo deve ser investigativo em sua natureza. Para Miriam, a investigação não está só no caso policial. "Eu acho que a Abraji virou a maior representação de jornalistas brasileiros no Brasil", afirma.

O evento reuniu jornalistas, estudantes de comunicação e recém formados na área, além de outros universitários que foram ao evento com objetivos específicos. Natália Nadai, estudante de Direito da Faculdade de São Bernardo, participou da mesa sobre Censura Judicial no Brasil. "É minha primeira vez no congresso, e achei que os palestrantes sabiam do que estavam falando", conta a estudante. Natália diz que veio exclusivamente para assistir este painel, mas que voltaria ao congresso outras vezes. Diferente de seu colega Dennys Camara, que apesar de ter gostado do painel, voltaria apenas para painéis específicos da área de direito. "Eu vim ver a parte jurídica", conta. 

Natália Nadai (Foto: Bruno Martins)
Durante o evento, os participantes destacaram a possibilidade de troca de informações. A rede social foi tema de uma das mesas do congresso, com a participação do diretor de jornalismo do Twitter no Brasil, Leonardo Stamillo. "Eu costumo falar para os jornalistas eles estão acostumados a enxergar o Twitter como se fosse uma boca, por onde você fala, por onde você dá sua opinião, mas ele é um ouvido super preciso da sociedade. Você só precisa entender como montar uma busca, uma pesquisa e você vai ouvir o que a população está falando sobre os mais variados assuntos.", diz.

Alguns estudantes colaboraram com o evento. Daniela Martins, do segundo semestre de Jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi destacou que o melhor de todo o congresso foi poder conhecer autores que leu durante o curso, destacando a ausência de alguns. "Faltou o Caco Barcellos, um dos autores de jornalismo investigativo que li e que senti falta."

"O congresso ajudou a me decidir sobre a área que quero seguir, onde trabalhar e onde não trabalhar", diz o estudante Matheus Mattos, que cursa o primeiro semestre de Jornalismo na mesma universidade.

Basile e Netto (Foto: Bruno Martins)
 O jornalista do Valor Econômico, Juliano Basile também destacou a interação dos participantes. Basile participou de uma mesa sobre os furos da Lava jato e aponta que gostou muito da "participação dos estudantes e dos assessores das empresas envolvidas". O jornalista ressalta que encontrar estes assessores é também "uma forma de pedir a eles que nos abram as suas fontes, e que eles contem o que aconteceu."

O diretor da Abraji e jornalista da TV Globo Vladimir Netto afirma estar satisfeito com os resultados da décima edição. "Conseguimos aprofundar temas que são importantes, discutindo as questões que estão realmente na linha de frente da cobertura nacional", diz. Este ano o congresso discutiu a operação Lava Jato, o caso Swissleaks, regulação da mídia, e outros temas discutidos em nível nacional. "A gente pode fazer o que realmente viemos fazer aqui, que é discutir a fundo as questões do jornalismo nacional neste ano", diz Netto.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

'Histórias humanas' dependem de empatia e confiança com a fonte

Por Sara Abdo
Foto: Camila Andrade
Nas coberturas "duras" do jornalismo, sobre política e economia, a relação entre repórter e fonte é frequentemente marcada pela desconfiança, mas, para revelar histórias e perfis humanos, de pessoas muitas vezes distantes da realidade do leitor, é preciso confiança, acesso e empatia. São 'personagens' assim que emergem das reportagens de Fabiana Moraes, repórter do Jornal do Commercio, de Recife, em Pernambuco.

Ela conversou com jornalistas sobre a delicada relação repórter-fonte, no 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, em São Paulo. Fabiana usou como principal exemplo a experiência que teve durante a apuração da troca de sexo de Joicy, protagonista do livro lançado durante o evento. "Com cinco meses de reportagem me mostraram, várias vezes, que a relação não é delicada e nem estável." 

Para ela, o primeiro passo para estabelecer contato com a fonte é mostra-se atenta e disponível para ouvir. Fabiana conta que passa um bom tempo sem anotar ou gravar para deixar o entrevistado à vontade e confiante. "Dificilmente alguém não quer ser ouvido. E falam muito mais quando percebem que a reportagem não terá o foco no que são, o que fazem, do que se alimentam", mas no "como" fazem isso. Usar o micro para descrever o macro, segundo Fabiana, também é uma chamada para a vaidade da fonte. Abordar um tema de ampla importância social a partir da história de vida de um cidadão é humanizar a narrativa.

No caso da matéria que virou livro "O nascimento de Joicy", a jornalista acompanhou parte do processo de mudança de sexo de um personagem e contextualizou a situação de pobreza, a mudança de comportamento de demais envolvidos antes e depois da cirurgia e os medos e incompreensões de muitos que vivem a situação.

Fabiana defendeu que mesmo em situações diferentes da vida do repórter, ele precisa entender que as pessoas são parecidas e há coisas em comum entre repórter e fonte. Entretanto, se essa similaridade, por um lado, facilita a aproximação entre as partes, complica a relação entre elas na medida em que a vida de um impacta na vida do outro. "Chega um momento em que se percebe um cansaço, uma invasão". É ai que cada profissional tem o seu próprio limite de envolvimento.

A repórter citou Leon Dash, do Washington Post. Ele acredita que, nesses casos, o limite é estreito. Após o fim de uma apuração, Dash recusou um presente de uma fonte. "Não sou amigo, sou jornalista", disse, segundo ela. Fabiana, por sua vez, confessou que já ajudou financeiramente alguns de seus entrevistados e não se arrepende. "Ao ver uma situação tão diferente e inferior, não podia dizer tchau, ir para casa, ligar o Netflix e só reencontrar aquela história no outro dia", disse.

O poder da imagem

A jornalista disse que a preocupação com a ilustração das reportagens não deve ser menor do que as entrevistas e convivências. "Podemos usar imagem para dizer mais, para contrapor, para repensar o lugar com o qual as fontes são vinculadas", explicou. Fabiana usou como exemplo sua reportagem Casa Grande Senzala, que acompanhou um caso de meninas estupradas por policiais.

À época, Fabiana se preocupou em retratá-las de costas, com vestidos brancos quase longos, em lugares muito distintos dos canais e esquinas onde as crianças costumam ser vistas. A jornalista comparou as imagens que pensou com o que usualmente é feito por grande parte da mídia – as meninas no centro de Recife, vestida com pouca roupa e com tarja preta nos olhos, já que são menores de idade.

Se juntamos o conhecidamente nobre ao que é menosprezado, é possível desconstruir uma ideia. Fabiana exemplificou: "Na reportagem Casa Grande Senzala, colocamos as meninas para serem fotografadas na Fundação Joaquim Nabuco, um ícone da nobreza intelectual". A desconstrução da ideia também foi feita na foto capa de "O Nascimento de Joicy", com a ilustração de Sandro Botticelli e Joicy em uma página só.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Para Grizotti, uso de câmaras escondidas em reportagens é benéfica para sociedade

Foto: Beatriz Sanz
Para Giovani Grizotti, repórter investigativo do programa jornalístico Fantástico, da Rede Globo, o uso de imagens escondidas em reportagens se justifica pelos benefícios que suas revelações geram à sociedade. Na visão do jornalista, o uso da câmara escondida em uma reportagem de denúncia passou de principal prova de um crime para elemento complementar no processo de apuração jornalística.

"O interesse público que está por trás de uma imagem torna ético o uso da câmara escondida", ressaltou o jornalista em painel do 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji, sob moderação de Fernando Molica.

Grizotti relembrou o caso de um acidente de ônibus escolar causado por problemas mecânicos, em 2004, no município gaúcho de Erechim, que resultou na morte de 16 crianças. Uma reportagem produzida pelo jornalista utilizando câmera oculta revelou fraudes em laudos de vistoria para ônibus de excursão envolvendo o engenheiro responsável e resultou na abertura de sindicância pelo Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem do Rio Grande do Sul (DAER).

O repórter conta que em casos de maior repercussão, como no caso da "Máfia das Próteses", ele acompanha o passo a passo das investigações e, geralmente, é chamado para testemunhar no processo. Sua reportagem sobre o esquema, exibida pelo Fantástico em janeiro deste ano, denunciou o pagamento comissões a médicos pela venda de próteses e resultou em duas Comissões Parlamentares de Inquérito no Congresso Nacional.

Neste caso, Grizotti afirma que um dos representantes de uma empresa de próteses já tinha conhecimento sobre a investigação do Ministério Público, que corria em segredo, e sabia sobre a reportagem que viria ser publicada sobre o tema.

O reconhecimento, no entanto, é um problema para "o repórter sem rosto". Grizotti, que evita ser fotografado para garantir sua segurança, já fora reconhecido e ameaçado por pessoas denunciadas em suas reportagens. Além disso, conta, o vazamento de uma foto sua pode vir a prejudicar futuras investigações. 

Com 19 anos de experiência na cobertura investigativa da RBS, Grizotti ainda explicou sobre as técnicas que utiliza no processo de produção de uma reportagem. O repórter explica que, para evitar cair em eventuais armadilhas, nunca faz contato pessoal com suas fontes, exceto quando envolve recebimento de materiais. "A não ser que seja um funcionário público, só me encontro com fontes em shopping, praças e onde tem alguém observando', concluiu.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Instituto Prensa y Sociedad crea base online de investigaciones de toda América Latina

Por Ángela Reyes*

Foto: Phillippe Watanabe
El Instituto Prensa y Sociedad (IPYS), una organización con base en Perú dedicada a promover el periodismo y la libertad de expresión en América Latina, creó una base digital que reúne investigaciones destacadas realizadas en la región durante 13 años. El objetivo, según explicó en Abraji su director, Ricardo Uceda, es presentar a periodistas, estudiantes y académicos herramientas para realizar buenas investigaciones a partir de ejemplos concretos.

El Banco de Investigaciones de IPYS incluye los artículos que ganaron o fueron finalistas del premio de investigación que otorga el instituto cada año, pero además información sobre la realización de los artículos, el behind the scenes: cuál fue el objetivo que se planteó el periodista al iniciar la investigación, cómo comenzó el trabajo (por un dato aislado, una decisión editorial, un tema que el medio se dedicaba a cubrir), cuánto dinero invirtió el medio y qué dificultades enfrentó, entre otros detalles que demuestran por qué el resultado final es de calidad tan alta.

La corrupción es el tema central de muchas de las investigaciones que presenta el sitio creado con apoyo de la UNESCO, que recoge trabajos realizados desde 2002 en adelante. Ese año, por ejemplo, "La Prensa" de Panamá demostró cómo el entonces presidente Arnoldo Alemán había logrado desviar dinero del presupuesto público para pagar sus cuenta personales. Al año siguiente, "El Comercio" de Ecuador publicó una investigación sobre enriquecimiento ilícito de jueces de la Suprema Corte de Justicia. Diez años después, el premio del instituto se los llevaron dos periodistas de "La Nación" argentina, Hugo Alconada y Mariela Arias, por una investigación sobre testaferros de Cristina Kirchner denominada "El señor de los hoteles (y el socio de la presidenta)" .

Sin embargo, el portal no se agota allí e incluye además varias investigaciones vinculadas a Derechos Humanos. Uceda destacó entre ellas una publicada por el diario Hora Zero de Brasil en 2012 que logró establecer la suerte que corrieron más de 100 niños tras salir de un correccional: la mayoría murió en delitos y menos de 5% se rehabilitó. Ese mismo año, el premio se lo llevó otra historia vinculada a derechos humanos de El Salvador sobre el pacto secreto entre el gobierno y la mara salvatrucha.

Además de ser buenos ejemplos para los periodistas, el análisis de los factores en común de las distintas investigaciones puede arrojar datos interesantes, por ejemplo, sobre cómo opera la corrupción en el continente, explicó Uceda. El instituto ya se asoció con una universidad que tomó 149 casos de todos los países de Latinoamérica y logró concluir, entre otras cosas, que existe una gran cantidad de actores privados que participan en los casos de corrupción.

La base tiene un sistema de búsqueda avanzada que permite encontrar las investigaciones por tres criterios: autor, país o tema. No todo el contenido está disponible para el público, sino que el IPYS libera cada semana distintas investigaciones y  además trabaja en acuerdos con universidades.

* é jornalista uruguaia convidada a acompanhar o Congresso pela Unesco.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Editor da Veja dá passo a passo de como construir uma grande-reportagem

Por Pâmela Ellen

Foto: Phillippe Watanabe
Para jogar luz em um caso esquecido e trazer a verdadeira história contextualizada à tona André Petry, editor da revista Veja, se debruçou durante seis meses na apuração da grande-reportagem "Terror silencioso", que aborda o assassinato do cineasta Eduardo Coutinho. Hoje, durante a mesa "Coutinho e o terror silencioso", no 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, o jornalista contou passo a passo como o trabalho foi produzido.


A tragédia, que aconteceu em fevereiro de 2014, foi veiculada nos principais noticiários do país durante uma semana. Depois, como de costume, perdeu grau de interesse, pelo menos da mídia. No entanto, tomou fôlego em 10 páginas da edição de 11 de fevereiro deste ano da revista da Editora Abril, quando o editor notou o grau de curiosidade que a história ainda poderia gerar. Para ele, quem determina o que é notícia, ou não, é a mídia, não o leitor. "No momento em que a imprensa esquece [dos casos, o fato], não tem lição [de vida] nenhuma", diz.

Ex-correspondente da Veja nos Estados Unidos, Prety se inspirou no jornalismo do país, especialmente pelo trabalho do jornalista Andrew Solomon, da revista The New Yorker, para escrever o caso. A reportagem "The Reckoning", que conta um caso de parricídio --quando um filho mata o pai, foi ponto de partida para a ideia da pauta nascer e ser sugerida à direção da revista.

A partir desse momento, Petry começou a "fazer a lição de casa". Além de realizar entrevistas, leu o inquérito, viu vídeos sobre Coutinho, buscou influências na literatura, se aprofundou em questões sobre a doença do assassino e acompanhou pessoalmente os depoimentos no tribunal. "Isso tudo é muito importante para que você veja as pessoas, a fragilidade, como elas se comportam, o tom de voz, isso tudo compõe uma história", acredita.

Coutinho foi assassinado a facadas pelo seu filho Daniel em seu apartamento na Lagoa, zona sul do Rio de Janeiro, o que fez o jornalista esperar da apuração por uma história de parricídio. A descoberta foi além.

Daniel era esquizofrênico, confirmando o que a imprensa deduziu à época, no entanto, passou anos sem o diagnóstico da doença. O casamento dos pais também não estava bem e a relação com o irmão era de inimizade. "É preciso ter abertura e sensibilidade para deixar a história te conduzir", aconselha.

Para realizar a entrevista com Pedro Coutinho, filho do cineasta, Petry primeiro quis conhecê-lo e apresentar seu objetivo antes de marcar uma entrevista. O jornalista recomenda que em casos de crime ou tragédia familiar é preciso ser sensível e ter tato com os entrevistados. "Tem perguntas que não se pode fazer na primeira entrevista, precisa passar confiança para a fonte. Quando ela se abre, não pode perder [a oportunidade]", afirma Petry. "O entrevistado tem que sentir que você é o melhor porta-voz para ele".

Petry considera Pedro como o entrevistado fundamental e o fio-condutor para que a reportagem pudesse ser feita. Além de ter feito uma conversa inicial em Petrópolis, realizou outras três entrevistas, totalizando quatro horas de material gravado –técnica que o jornalista confessa dificilmente usar, para ele, o gravador é "um instrumento de constrangimento" e pode intimidar o entrevistado.

Outro aspecto importante da reportagem que Petry cita é a clareza, o jornalista orienta que, para ter um bom texto, é preciso escrever, reler, reescrever e, se possível, entregar para outra pessoa ler e dizer se entendeu o conteúdo.

AUDIÊNCIA
A grande-reportagem de Coutinho contradiz o senso-comum e, apesar de ser extensa, alavancou a audiência do site da Veja. Foram mais de 30 mil visitantes únicos que leram a história de Coutinho por Petry.

"Todo mundo diz que com a internet ninguém mais quer ler reportagem longa. Mas minha matéria provou o contrário", afirma.

Ele também recebeu feedbacks de leitores que conheciam e tinham histórias semelhantes. Ou seja, ele criou empatia nos leitores com a reportagem. O leque de informação se estendeu para além do assassinato de Coutinho e abordou também a esquizofrenia.

"Se o leitor esquece o que tinha para fazer para ler sua reportagem, você cumpriu sua tarefa [como repórter]", diz ele sobre as histórias que ouviu após a publicação.

Questionado como acha que Coutinho interpretaria sua reportagem, Prety não tem dúvidas: "ele acharia um escândalo, muitos não sabiam da doença de seu filho, mas eu quis fazer algo delicado, não expus a tragédia".

Vender a pauta à direção da revista, segundo ele, foi fácil e a decisão editorial, depois da publicação, foi de produzir mais grandes-reportagens. "Mas não conseguimos, veio o passaralho [demissão de jornalistas]".

O material de Petry pode ganhar um livro-reportagem em breve com todo o conteúdo da investigação.

O editor concluiu com o sexto "segredo" que ajudou seu trabalho: "a sorte é o último elemento [para um jornalista], sem ela não é possível".

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Prêmio de jornalismo destaca grandes reportagens produzidas por jovens estudantes

Por Letícia Ferreira
Foto: Phillippe Watanabe
Os estudantes de jornalismo tiveram um espaço privilegiado de debates durante do 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. A "renovação do jornalismo" foi o tema da mesa que contou com a presença vencedores da edição de 2014 do Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão, realizado pelo Instituto Vladimir Herzog, criado em 2009.

Experiências como as da estudante Paloma Rodrigues, que investigou o peso econômico e social das pensões pagas pelo governo a militares da reserva ligados à ditadura, foram debatidas por alunos e professores que se inscreveram para acompanhar o debate. Paloma enfatizou a oportunidade de realizar uma grande reportagem - algo que ela nunca tinha feito antes -, além da chance de lidar com o imprevisível. "Muita coisa mudou no meio do caminho e você precisa estar preparado para o que pode acontecer", disse.

Mesmo num congresso pautado pela troca de experiências entre profissionais mais velhos, envolvidos em cobertura de grande envergadura, como a Lava Jato e fraudes no financiamento da educação, há espaço para a troca de experiências dos que estão começando agora na profissão. A curadora do prêmio, Ana Luisa Gomes, ressaltou a importância de ter "um painel onde eles (estudantes) possam contar suas experiências e o aprendizado que tiveram".

Uma característica do prêmio é a experiência de tentativa e erro, com o apoio de tutores e professores que acompanham os alunos durante todo o processo de apuração da reportagem. "Eu me sinto outra pessoa, outra jornalista depois do prêmio", disse Paloma.

"Nós tivemos que lidar com coisas que nós não tínhamos tido contanto até então na faculdade. Isso nós amadureceu antes e depois da realização da pauta. Mudou o que nós achamos que é um jornalista", disse Suria Moustapha, autora de um documentário sobre prisões de índios na ditadura. "O fazer jornalístico se aprende na prática. Eu aprendi um pouco como ser repórter. Aprendi a ser menos ingênuo de achar que era bom e que tudo que me entregam é bom", disse Gabriel Azzi Collet, co-autor de uma das pautas finalistas da primeira fase do prêmio no ano passado.

Neste ano, o concurso está em sua 7ª edição. O edital foi aberto no dia, mês de abril, e os finalistas foram divulgados em junho. O tema foi "Desafios da Liberdade Expressão no cenário dos Direitos Humanos: retratos no Brasil de hoje". Ao todo, 232 estudantes inscreveram trabalhos.

Todas as informações sobre o prêmio estão em http://vladimirherzog.org/jovem-jornalista/

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Processos contra a imprensa levam a autocensura e inibem jornalismo investigativo

Por Juliana Domingos de Lima

Crédito: Camila Alvarenga
O hábito de processar a imprensa leva a autocensura, inibe o jornalismo investigativo e prejudica a liberdade de expressão. Com a internet, as pessoas "perderam" o direito de serem esquecidas. As redes sociais e as matérias publicadas nos sites mantêm indefinidamente o registro de casos que podem constrangê-las. Essa perenidade do conteúdo online fez aumentar as ações judiciais contra jornalistas nos últimos anos.

De acordo com Tiago Mali, jornalista da Abraji, as pessoas passaram a recorrer cada vez mais à justiça para remover notícias que ainda impactam negativamente suas vidas.

O cenário pode parecer ruim para os jornalistas. Mas, de acordo com a advogada Taís Gasparian, houve uma evolução nas últimas décadas. Há 23 anos trabalhando pela defesa de veículos como Folha de S.Paulo, UOL, Terra, O Globo e Carta Capital, Taís se mostra otimista. "Apesar das tentativas em contrário, acho que o Brasil está em um bom caminho", diz.

A advogada, no entanto, chamou atenção à mudança ocorrida em 1999 na Justiça brasileira, na qual a responsabilidade passa a ser também do jornalista, não só do veículo. Isso fez com que o autor da notícia começasse a carregar processos, que podem configurar assédio judicial e intimidação. Mali aponta que, nesse contexto, com medo das retaliações, não raro o jornalista passa a se autocensurar.

Ferramenta de controle social do cerceamento judicial contra jornalistas apresentada por Mali, o CTRL+X é um serviço da Abraji que mapeia pedidos de remoção de conteúdo. Iniciado durante as eleições de 2014, chamado então Eleição Transparente, o banco de dados tinha como objetivo verificar os candidatos que defendiam a liberdade de expressão mas, ao mesmo tempo, entram com processos para a remoção de conteúdo. O banco de dados, que atualmente abrange o período entre julho e outubro do ano passado, reuniu 192 ações na justiça e está sendo ampliado para possibilitar a consulta dos atores que mais processam jornalistas, mostrando suas principais alegações, as unidades federativas com mais ações, veículos mais processados e ainda períodos que concentram um pico maior de ações judiciais contra a imprensa.

Além de acompanhar quem processa, a mesa também deu dicas de como evitar os processos. Taís explica que o tempo de prescrição no Código Civil é de três anos e recomenda certos cuidados durante esse período. É fundamental guardar, de forma organizada, todas as gravações, entrevistas, telefonemas, documentos e fotografias. Esclarece também que, segundo o Marco Civil da Internet, vigente desde abril de 2014, o conteúdo online só deve ser removido com ordem judicial, o que significa que o jornalista não é obrigado a tirar seu conteúdo do ar logo que haja pedido de remoção.

A advogada reforça os cuidados nas matérias com crianças e adolescentes - nesses casos, recomenda "pensar três vezes antes de publicar", lembrando que está vedada a divulgação dos delitos cometidos por menores e sua identidade, fotografá-los, citar nomes ou iniciais, filiação e residência. Proteção prevista no artigo 143 do Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, sua violação pode suspender a programação da emissora por até dois dias ou suspender a publicação de uma revista ou de um jornal por até dois números. Enfatiza, ainda, que é importante pedir documentos para confirmar a idade dos entrevistados e fotografados. "O Brasil não tinha cultura de liberdade de expressão, mas está melhorando. Acho que ela deve ser completa e que depois, se necessário, deve-se responder aos danos", opina.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.




Emoção e multiplataformas são as apostas da Globo para Olimpíada do Rio


Por Caroline Monteiro

Foto: Camila Alvarenga
Não são só os atletas que precisam de preparação longa e intensa para um melhor desempenho durante os Jogos Olímpicos. Ainda em 2014, mais de dois anos antes da abertura, que acontece em agosto de 2016,  a equipe de jornalismo das grandes emissoras já está em aquecimento para a cobertura da primeira Olimpíada no Brasil. 

Foi sobre essa preparação que o jornalista Renato Ribeiro, responsável pelo projeto olímpico da Globo, falou em painel que debateu a inovação na cobertura em TV da Olimpíada de 2016, núltimo dia do Congresso da Abraji. "Estamos criando um evento multiplataforma, com três grandes plataformas integradas e trabalhando juntas."
No Brasil, a transmissão do evento será feita por três canais abertos (Globo, Band e Record) e por quatro canais fechados (SporTV, Fox, ESPN e Band Sports). Com exceção das empresas das Organizações Globo, todas as outras têm liberdade apenas para replicar e repetir na Internet o que foi transmitido na televisão. O desafio, segundo Ribeiro, é concorrer com a própria Globo, uma vez que a emissora é a única que pode produzir conteúdo diferente para TV aberta, TV fechada e Internet. "Estamos trabalhando de um jeito que, quando acabar um jogo e começar a novela, o telespectador vá para a web ou para o SporTV, e não para a Record."

Outra estratégia adotada pela emissora é apostar na qualidade do ao vivo. Para isso, foram comprados espaços para câmeras exclusivas nos locais de transmissão, com a intenção de dar foco nos atletas nacionais caso eles não estejam sendo mostrados pelas câmeras da Olympic Broadcasting Services (OBS - organização internacional responsável pela transmissão dos jogos). Na linha editorial, o objetivo é fazer o telespectador entender o esporte, as regras da competição e quem são os grandes atletas. "Nosso desafio é fazer as pessoas se emocionarem com as Olimpíadas e, para isso, elas precisam saber o que está acontecendo". 

Somos Todos Olímpicos. A programação da Globo voltada para a Rio 2016 será intensificada em agosto de 2015, com ampla divulgação dos esportes, da campanha "Somos Todos Olímpicos", e com a criação de séries especiais para o Fantástico e Jornal Nacional e do programa "Balada Olímpica", que estreia em 5 de agosto e será apresentado por Carol Barcellos uma vez por mês após o Jornal da Globo e em todos os dias dos Jogos Olímpicos.

A transmissão será realmente intensa: na TV aberta, serão nove horas de programação esportiva durante os 17 dias de competição, totalizando 160 horas, incluindo 110 horas ao vivo. A grande dificuldade é a montagem da grade da emissora. Esportes coletivos serão transmitidos ao vivo. Atletismo, natação e ginástica, considerados os três grandes pilares dos jogos, também têm grande índices de audiência, mesmo que não tenham atletas brasileiros nas competições, porque são os esportes que mais formam heróis, segundo Ribeiro.

Algumas provas específicas, muito longas ou com muitos atletas competindo ao mesmo tempo, são problemáticas para o planejamento da emissora, que começou dois anos e meio atrás. Apesar da antecedência, nem tudo é previsível. "A segunda semana da Olimpíada é uma incógnita", conta Ribeiro. "As decisões tem de ser tomadas de um dia para o outro."

Além da competição. Para Ribeiro, a relação Copa x Olimpíada é equivalente ao embate entre paixão e amor, respectivamente. Por isso é tão importante defender os quatro pilares que a Globo vem adotando na campanha pré-Rio 2016: emoção, admiração, transformação e educação. Como a diversidade de atletas e esportes é gigante, o tratamento de toda a cobertura é muito diferente, assim como o público atingido. 

"Nas Olimpíadas, as mulheres são tão protagonistas quanto os homens. Isso é muito importante para nós que fazemos conteúdo. Elas são a primazia da audiência e quem mandam no controle remoto. O protagonismo das mulheres faz elas se verem naquela situação", aponta Ribeiro. 

Outra preocupação do jornalista é o tratamento que o esporte receberá após o fim da Olimpíada no Brasil. "Vemos uma política voltada para a área apenas agora. Mas e depois? Rio 2016 vai jogar uma cortina de fumaça no esporte brasileiro. Todo mundo vai achar que é uma maravilha, mas não é. A direção das confederações é catastrófica."

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Lava Jato: jornalistas contam sobre as dificuldades do furo durante a cobertura

Por Beatriz Atihe


Andréia Sadi, Juliano Basile e Sabrina Valle (Foto: Beatriz Sanz)
A dificuldade do furo e o contato com as fontes durante a apuração da Lava Jato foi tema de uma das mesas do 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo neste sábado (4).  A repórter da sucursal de Brasília do jornal Folha de S.Paulo Andréia Sadi, que publicou uma das primeiras reportagens sobre o esquema. "A operação é um déjà vu constante, porque a transparência dificulta o furo. Então quem chega primeiro no documento é quem dá o furo", afirma.


A matéria revelou que o ex-deputado federal André Vargas tinha voado em um jatinho pago pelo doleiro Alberto Youssef. "Uma fonte me entregou um documento que mostrava uma troca de mensagens entre os dois. Falei com o Vargas e ele acabou me contando toda a história", explica. Após essa matéria, o deputado foi cassado.

Na opinião da jornalista, além de ter um bom relacionamento com as fontes, é necessário compartilhar informações com colegas de redação. "Tem muito jornalista que quer dar o furo sozinho, mas eu acredito que ao compartilhar é possível agregar novas ideias ao trabalho". Ela também destaca a importância das provas. "É com o documento que você descobre o que passou despercebido pelas outras pessoas. Em operações como essas, eles são essenciais pois servem também como garantia do material produzido."

A Operação Lava Jato, que começou em março de 2014, investiga um grande esquema de lavagem e desvio de dinheiro envolvendo a Petrobras, empreiteiras e políticos. Na última quinta-feira (2), a Polícia Federal deflagrou a 15º fase da operação com a prisão do ex-diretor internacional da empresa, Jorge Zelada. Por causa das prisões, o caso vem tomando conta dos noticiários e com a cobertura surgem os furos jornalísticos.

Outro jornalista que acompanhou os desdobramentos da Lava Jato e trouxe novos personagens como a ex-gerente da Petrobras, Venina Velosa, foi o repórter do jornal Valor Econômico, Juliano Basile. Segundo o jornalista, as revelações chegaram até ele durante uma conversa com um advogado sobre uma fusão. "O assunto não era relacionado com a Petrobras, mas esse advogado me contou quem era a Venina e ai eu saquei que era uma mega história", contou.

As conversas por Skype com a ex-gerente da empresa e os documentos enviados por ela renderam grandes matérias sobre o esquema de lavagem de dinheiro dentro da petrolífera. "Era muito material, fiquei louco. Além disso, os documentos eram escritos em 'petrolês', então eu tinha que traduzir para uma linguagem mais compreensível."

Depois da matéria pronta, Basile teve outro desafio que foi assegurar a veracidade das informações para os editores do jornal. "Antes de sair a publicação, eu passei por uma sabatina, me perguntaram até que ponto as informações são confiáveis. A resposta que eu dava era: todo o texto foi construído com base na documentação que eu tenho. Todas as aspas da Venina estavam registradas."

Na opinião de Basile, o foco principal do jornalista ao cobrir um determinado assunto é contar a história sem a intenção de destruir um personalidade. "Temos de descobrir e vasculhar e não fazer uma apuração para se derrubar alguém. Nesse caso, o maior prêmio do jornalista é contar o que aconteceu lá dentro para que a maior empresa do Brasil se tornasse um galinheiro."

Se tratando de Petrobras, a repórter da Bloomberg Sabrina Valle, que cobre o assunto há quatro anos. A jornalista tem como uma das suas matérias principais o caso da refinaria de Pasadena. "O mais interessante foi que o caso de Pasadena foi importante para criar o ambiente político que a Lava Jato ganharia força."

Para Sabrina, o maior desafio de se cobrir casos de grande repercussão é costurar os pontos e entender a história, porque nem tudo o que a fonte revela é publicável. "Você precisa costurar os fatos, organizar as informações. Além disso, o jornalista tem o papel de convencer os editores o motivo que torna o fato relevante. É sempre um desafio."

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.