26/06/2016

"A propaganda não vai pagar a conta dos veículos", afirma Bob Garfield, da NPR


Por Jeniffer Mendonça e Tiago Aguiar

Como viabilizar economicamente o jornalismo, atingir o público e fornecer informação de qualidade? Um dos apresentadores do programa norte-americano On The Media, da NPR, Bob Garfield é enfático: "A propaganda não vai pagar a conta dos veículos". 


Fotos: Alice Vergueiro
No painel "Imprensa: o que vem depois da crise?", o jornalista também destacou que cada vez mais os leitores desconfiam do papel da mídia e que o mercado do consumo de notícias mudou e não vai voltar nunca mais a ser o que era, assim como a propaganda nos veículos. O debate foi mediado pelo jornalista Fernando Rodrigues, do UOLe encerrou o 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo no sábado (25).

Para ratificar o seu posicionamento, Garfield usou como exemplo a criação do jornal The Sun, o primeiro que utilizou da propaganda, de preço baixo e escala alta para atingir a audiência de massa.

"Esse modelo durou por quase dois séculos, mas durou, com o verbo no passado", comentou o jornalista, que escreveu um artigo referência na discussão do futuro da mídia, que se tornou posteriormente o livro "Cenário de Caos" (Editora Cultrix, 304 pags., R$ 49,50 ). 

Segundo Garfield, a economia das organizações jornalísticas foi tocada durante 300 anos por três fatores: simbiose (convergência entre público, anunciantes e a imprensa), barreiras de entrada (devido a custos altos, limitando a competitividade do mercado) e demanda alta e baixa oferta (tornando o segmento muito lucrativo).

Ele perguntou ao público: "Quantos de vocês já clicaram num banner publicitário?". Com apenas um braço levantado, Garfield disse sobre o lugar que a publicidade possui no século 21 e como o investimento no setor diminuiu o alcance de empresas jornalísticas. "Quando as pessoas tiveram a oportunidade de fugir da propaganda, elas o fizeram", afirmou

Dentre os modelos de sucesso, citou o jornal The New York Times, onde já trabalhou, como referência. "É a melhor organização do mundo, tem um milhão de assinantes". Fernando Rodrigues ponderou, no entanto, que é uma alternativa não replicável no Brasil e que ainda é próximo da lógica da "audiência de massa". Garfield concordou. "O New York Times nunca vai falir".



O norte-americano destacou ainda que os micro-pagamentos, ou seja, contribuições do público, são a fonte mais viável de financiamento, mas que precisariam ser universais e com a menor barreira possível.  "O problema é que sistemas do mundo inteiro cobram muito caro para fazer cada transação, e tudo isso precisa ser feito de forma transparente".

Ao comentar sobre o Washington Post, apesar de ter enfatizado que hoje o jornal tem um déficit na ordem de centenas de milhões de dólares, elogiou o uso das redes sociais e da estratégia online. "Quanto mais avançamos, mais o jornal vai se parecer com o BuzzFeed e vice-versa. Todos nós abraçamos técnicas que aumentam a audiência e tornam notícias compartilháveis".

Questionado sobre a longevidade do Facebook, o jornalista disse que há usuários ativos demais, entre histórias de vida e conexões, nos perfis individuais para que a rede social não dure a médio prazo. Mencionou ainda o Wall Street Journal, o Financial Times e a The Economist como organizações jornalísticas que sempre terão demanda. "Esses veículos conseguem dar informações exclusivas que as empresas vão pagar para obtê-las", enfatizou.




O jornalista comentou sobre o momento de polarização ideológica, como na cobertura das eleições presidenciais norte-americanas, associado à veiculação de notícias. "Hoje em dia as pessoas procuram ler o que reforça suas ideias. A mídia não pode fazer papel de árbitro, tem que apresentar todo o contexto", afirmou.
   
Garfield também comentou que veio ao Brasil para, durante uma semana, entrevistar o máximo de pessoas e tentar entender a crise político-econômica que o país atravessa e o papel que o jornalismo brasileiro tem desempenhado em meio ao caos. Ele terminou com um recado de solidariedade: "É um privilégio participar desse evento e conhecer grandes jornalistas. Lamento pelo que o Brasil vem sofrendo, mas admiro a determinação para superar a crise".


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Reportagem que denuncia censura imposta à imprensa no RS ganha Prêmio Jovem Jornalista; conheça os bastidores

Por Helena Mega

Três crimes mal resolvidos e um jornalista processado por injúria, calúnia e difamação levaram a estudante de jornalismo Joyce Heurich, da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), a ser premiada com o documentário "Três crimes e uma sentença" no 7º Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão, promovido pelo Instituto Vladimir Herzog.




Joyce contou no sábado (25) os caminhos da pauta, que teve a professora Luciana Kraemer como orientadora e a jornalista Bianca Vasconcellos, da TV Brasil, como mentora do grupo. As três participaram da mesa "Prêmio Jovem Jornalista: os vencedores de 2015", que teve Ana Luisa Gomes, representante da Oboré e dos Instituto Vladimir Herzog, como moderadora.

A partir do tema proposto, "Desafios da Liberdade de Expressão no cenário dos Direitos Humanos: retratos no Brasil de hoje", Joyce fez a leitura do livro "Uma Reportagem, Duas Sentenças - O Caso do Jornal Já", escrita pelo jornalista Elmar Bones, proprietário e editor-chefe do Jornal Já, de Porto Alegre.

Bones foi processado pela família Rigotto após publicar, em 2001, uma série de reportagens sobre Lindomar Rigotto, irmão do ex-governador gaúcho Germano Rigotto. As publicações abordaram o assassinato de Lindomar, a morte da bailarina Andréa Catarina e caso no qual Lindomar esteve envolvido poucos meses antes de sua morte e a participação dele em um escândalo de corrupção envolvendo a CEEE (Companhia Estadual de Energia Elétrica) do Rio Grande Sul.​

O jornalista foi condenado a pagar indenização de R$ 130 mil à família Rigotto. Após tomar conhecimento do caso, Joyce entrou em contato com o profissional, ainda atuante no jornal e com a ONG Artigo 19, que está denunciando o caso à CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) por ferir à liberdade de expressão."Conversando com a ONG, percebemos que é algo que acontece no Brasil inteiro, não só em Porto Alegre", explicou a estudante.

A ideia de fazer o documentário de 15 minutos surgiu porque ela já trabalha com televisão. O grande desafio, no entanto, foi editar todo o material dentro do tempo estipulado no prêmio. "A cada entrevista, descobríamos várias coisas", disse Joye, que vê a exposição do caso como uma contribuição muito pequena, mas necessária.

Uma das ajudas que a estudante recebeu veio de um professor de cinema da faculdade, que cedeu a câmera para as filmagens. Segundo Bianca, um dos acertos de Joyce foi escolher um bom time para trabalhar. "Na televisão, não dá para não pensar em equipe", destacou. 

O painel contou com a presença dos jornalistas Nemércio Nogueira, Sinval Itacarambi Leão e Dácio Nitrini, que fazem parte da comissão avaliadora dos projetos. 

Foram recebidas 91 propostas de pautas de todo o país e três delas escolhidas para serem financiadas pelo Instituto Vladimir Herzog.

O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

"Além de técnica, fotojornalismo tem que apresentar boas histórias", afirma editor da Vice; veja dicas

Por Caio Nascimento


Fotografar na imprensa vai além do clique, um verdadeiro trabalho fotojornalístico tem que apresentar boas histórias, que expliquem a razão da foto existir. É o que afirma o editor de fotografia da revista Vice, Felipe Larozza, que realizou o workshop "Fotojornalismo básico", no 11º Congresso de Jornalismo Investigativo, neste sábado (25).

Para Larozza, que deu dicas de técnicas e de ferramentas fotográficas, o que forma o profissional do fotojornalismo é a boa escrita e o olhar sobre o mundo, não como meras imagens, mas como narrativas. "Se na mesa do bar elogiarem a história que há por trás das suas fotos, pronto, você já tem uma pauta", exemplificou.

Foto: Alice Vergueiro
De acordo com o profissional, não existe mais a tradição de fazer a foto maravilhosa do momento decisivo, é preciso praticar captando histórias e notícias. "Esse é o fotojornalismo de hoje", afirmou. Larozza apontou que essa iniciativa trilha o sucesso do fotojornalista. "O que faz o fotógrafo é a boa visão", pontuou.

O editor da Vice ressaltou que é preciso desmistificar a visão artística do fotojornalismo. "O fotojornalismo requer técnica, bagagem e roteiros que chamem a atenção do público".

 ENTRANDO NO MERCADO

Aos que querem entrar no mercado da fotografia, Larozza ressaltou a importância de se agilizar a parte burocrática. "Façam um CNPJ quando forem vender suas fotos, porque os veículos não compram fotos sem emitir nota fiscal para não caírem na malha fina do imposto de renda", disse. Para registrar um CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas), basta entrar no Portal do Empreendedor.

Larozza apontou também que o melhor campo de entrada para quem está começando é vender fotos para agências de fotografia, apesar de se dizer contra essas empresas. "Sou militante real e convicto contra as agências de fotografia, mas é a melhor forma de se começar", contou. Segundo ele, essas empresas pagam em torno de R$ 15 para o profissional e não oferecem direitos trabalhistas. Entretanto, há veículos, como a Vice, que pagam o fotógrafo por pauta produzida, sem haver intermédio de agências.

TÉCNICAS

 Aconselhando os fotógrafos de primeira viagem, Larozza contou que além de um bom repertório para criar boas pautas fotojornalísticas, o conhecimento técnico é o primeiro passo. "Entender a câmera tecnicamente inaugura seu contato com o mundo da fotografia", disse.

Além disso, o editor apontou a fotometria como uma técnica essencial para dominar uma câmera. Velocidade, abertura da lente e o fator ISO, que indica a sensibilidade da película à luz, são os suportes principais para comandar qualquer máquina fotográfica. "Esses três pilares vão fazer você dominar a fotografia em pouco tempo", ressaltou.

Em relação a essas bases, Larozza explicou que a velocidade da película que protege a câmera da iluminação está relacionada com a quantidade de tempo que essa proteção fica aberta recebendo luz. De acordo com o editor, quanto mais tempo a película fica aberta, mais luz recebe, e, portanto, o fotógrafo pode perder qualidade de imagem. Para que isso não aconteça, ele aconselha a sempre buscar o equilíbrio entre a velocidade, o ISO e o uso das lentes conforme varie o ambiente.

Segundo Larozza, essas bases citadas se aprendem sem muitos investimentos. "Mais vale ler o manual da máquina de que pagar cursos caros que têm por aí. Sem contar que aprendi muitas noções suficientes no YouTube", contou.

Ao abordar a produção de vídeos no fotojornalismo, o editor afirmou que o único fator que muda entre essa mídia e a fotografia é a velocidade da câmera, porque neste último o espelho da câmera fica aberto o tempo todo recebendo luz. "No vídeo, podemos jogar a velocidade lá em baixo, deixá-la próxima da faixa de 60 a 100", orientou.

Recomendando equipamentos para fotojornalistas iniciantes, o profissional indicou a câmera T3i, da Canon. "Ela é versátil, com uma qualidade de vídeo muito boa e não muito cara comparada com as demais. Fiz algumas matérias da Vice com esse modelo", disse.



O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Repórteres que cobrem direitos humanos devem conhecer história e legislação, alertam jornalistas

Por Luan Ernesto Duarte


Em tempos polarizados, nos quais conceitos de direitos humanos estão "generalizados", repórteres que cobrem a área precisam dominar profundamente os conceitos da lei universal. É o que alertam os jornalistas Leonardo Sakamoto, da Repórter Brasil e Caio Cavechini, da TV Globo, que compartilharam suas experiências no painel "O papel do jornalista na defesa dos direitos humanos", neste sábado (25), durante o 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.

Para Sakamoto e Cavechini, o jornalista deve conhecer a história e em especial a Declaração Universal dos Direitos Humanos e buscar reportar histórias que estão em desacordo com os direitos nela assegurados. A defesa dos princípios expressos na lei é, inclusive, item do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros.

"Nesse cenário, onde cobertura de direitos humanos virou uma coisa de esquerdista, temos que pensar na nossa habilidade de comunicação, estar bem informados e buscar boas histórias que possam dialogar com a pessoa que tenha resistência à essas questões", afirmou Cavechini.


Foto: Alice Vergueiro
Segundo Sakamoto, o conceito de direitos humanos vem sendo distorcido e a população acaba sendo influenciada pelo jornalismo "espreme que sai sangue", levando a defender a lei como "coisa de bandido". "Na verdade isso diz respeito a todos nós", disse.

Sakamoto conta que toda a tentativa de discutir a temática na sociedade é seguida de represálias violentas, como xingamentos e agressões à jornalistas que realizaram trabalhos na área."Há uma reação na sociedade a quem coloca em pauta os direitos humanos. O profissional que questiona a desigualdade, a injustiça, a questão de gênero com certeza será muito xingado."

O fundador da Repórter Brasil acaba de lançar o livro "O que aprendi sendo xingado na internet", no qual ele relata sua experiência. O jornalismo investigativo realizado pelo canal é especializado no rastreamento das cadeias produtivas que envolvam crimes como trabalho escravo e tráfico de seres humanos. 

Muitas denúncias realizadas pela Repórter Brasil acontecem em fazendas, carvoarias e outras unidades industriais que são flagradas violando os direitos humanos. A agência já identificou os caminhos feitos pelos produtos desses lugares até o mercado nacional e internacional.

"Nós conseguimos pressionar o sistema produtivo nacional e internacional e até o mesmo o financeiro para gerar mecanismos de bloqueio a quem se utiliza desse tipo de crime", contou o jornalista

As reportagens que mostram o trabalho escravo utilizado pelas empresas denunciadas geram impacto econômico, segundo Sakamoto. Companhias como Cosan, MRV Engenharia e a Zara tombaram na bolsa de valores após publicações que revelaram a prática de atividades análogas à escravidão. "O nosso foco, na Repórter Brasil, é mais o impacto do que necessariamente o furo", disse.

Desrespeitos à legislação trabalhista e um cotidiano de sofrimento, depressão e risco é o que revela o documentário "Carne e Osso", de Cavechini. O filme mostra como a cadeia produtiva de carne no Brasil viola os direitos do trabalhador, colocando o profissional em uma linha de produção que exige movimentos repetitivos e gerando consequências emocionais, físicas e motoras ao funcionário.

"Foram três anos de investigação e trabalho ininterrupto com base numa demanda de procuradores e fiscais do trabalho que procuraram a Repórter Brasil dizendo que as varas trabalhistas estavam cheias de processos relacionados a frigoríficos", comentou Cavechini.

Nas cidades onde estão localizados esses frigoríficos, o jornalista relata a dificuldade que os moradores têm em encontrar emprego, já que muitos rejeitam o serviço com carnes. "Quando os haitianos chegaram no Brasil, muitos foram trabalhar nesses frigoríficos porque eles oferecem carteira assinada", contou Cavechini, que também é responsável pelo documentário "Jaci – sete pecados de uma obra amazônica", que aborda as hidrelétricas em Rondônia, o poder das empreiteiras e a relação com o governo federal.



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Cobertura de crises humanitárias requer preparo emocional do jornalista, aconselham repórteres especiais

Por Ariane Costa Gomes

Repórteres em meio à coberturas de crises humanitárias estão propensos a passar por situações imprevistas no roteiro e possíveis fracassos. Para superá-los, é preciso ter preparo emocional, alerta os jornalistas Leandro Colon, da Folha de S.Paulo e Letícia Duarte, do Zero Hora.

Os dois repórteres especiais participaram do painel “Cobertura de crises humanitárias: experiências”, mediado pelo jornalista freelancer Germano Assad, neste sábado (25) no 11º Congresso da Abraji, em São Paulo.

Foto: Alice Vergueiro
Os profissionais contaram que neste tipo de cobertura, muitas vezes, o jornalista sai para a rua sem ter uma pauta definida e sem saber com qual história voltará. São nessas situações que ele tem que estar preparado para os possíveis imprevistos e saber redirecionar rapidamente o foco da reportagem. 

Para Colon, esse redirecionamento na rua pode ser decisivo. “Meu foco é contar histórias e contar o que eu vi de forma mais fiel possível”, afirma. 

Desencontros com o personagem e perda de equipamentos são alguns dos imprevistos que podem acontecer durante a produção da reportagem. Nessas ocasiões, aconselham os jornalistas, o repórter precisa ter inteligência emocional para conseguir pensar em alternativas, além de lidar com a pressão pessoal e dos chefes. “Lidar com o fracasso de não conseguir é importante para continuar tentando”, afirma Colon.

Letícia destaca outro imprevisto: o de risco à segurança do profissional, presente nas coberturas de crises humanitárias em terrenos adversos. Segundo a jornalista do Zero Hora, a adrenalina de encontrar boas histórias pode, às vezes, fazer com que o repórter não meça os riscos que corre.

Os repórteres também ressaltaram a importância de sugerir e apostar em boas histórias e acreditar na função social da profissão. “O jornalista é como um tradutor de mundos capaz de aproximar realidades distantes do público”, diz Colon. 

A proximidade e a honestidade com a fonte também foram pontos discutidos no painel. Para os jornalistas, vivenciar a história possibilita escrever uma narrativa diferente da convencional e é capaz de mostrar algo que as pessoas não estão vendo. Porém, o repórter precisa lembrar que não é o protagonista da reportagem e se colocar no seu lugar de interlocutor. “É preciso estar próximo o suficiente para gerar empatia, mas reconhecer seu papel como repórter", afirma Letícia.



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Trabalhos acadêmicos mostram momento do jornalismo investigativo em ES, MG e RS

Por Juliana Tahamtani 


Além de receber profissionais experientes, com anos de trabalho nas principais redações do Brasil, o 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo promovido pela Abraji também abriu espaço para trabalhos acadêmicos produzidos por jovens estudantes de jornalismo fora do eixo Rio-São Paulo, no" III Seminário de Pesquisa em Jornalismo Investigativo".


Foto: Alice Vergueiro
Expositores do Espírito Santo, de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul apresentaram diferentes pontos de vista sobre como o jornalismo investigativo se desenvolve - e encontra dificuldades também - em cada um desses Estados.

Siumara de Freitas Gonçalves e José Carlos Correa, da Ufes (Universidade Federal do Espirito Santos), pesquisaram sobre "Telejornalismo Investigativo: o que acontece nas emissoras capixabas?". Os autores tomaram como caso concreto o jornalismo praticado nas emissoras de TV aberta no Estado. A partir da identificação dessas estações, foi feito um mapeamento e uma descrição do tipo de produção em cada uma dessas redações.

Uma das conclusões é a de que a carência de recursos e profissionais inibe o jornalismo investigativo. "O alto custo das produções, as redações enxutas e a falta de profissionais especializados são fatores que fazem com que a prática do jornalismo investigativo na Espírito Santo seja pouco explorada", afirma Siumara.

Para os autores da pesquisa, o jornalismo investigativo no Espírito Santo "estagnou". Como resultado, a cobertura acabou migrando para assuntos cotidianos, num ritmo diário, deixando passar oportunidades de produzir materiais investigativos mais aprofundados.

BANCO DE DADOS EM MG

A análise da produção jornalística feita em Minas Gerais foi apresentada por Marcelo Marques Araújo e Timoteo Batista dos Santos Junior. Eles falaram sobre "Jornalismo Investigativo, interface lógica, discursiva e comunicacional com software de tratamento de dados jornalísticos".

O trabalho mostra como os avanços tecnológicos em conjunto com a crescente infraestrutura de base de dados, trouxeram para o jornalismo investigativo ferramentas que antes não eram possíveis de serem imaginadas pelos profissionais da área. Os pesquisadores também analisaram a criação de um broadcasting usado para auxiliar no tratamento de dados de grande âmbito das universidades federais.

TABACO NO RS

Marília Gehrke, da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), pesquisou a construção das matérias jornalísticas sobre o tabaco e saúde a partir das fontes usadas pelos repórteres na cobertura da reunião da ONU de 2014 em Moscou sobre o tratado que regula o tema.

No trabalho "Tabaco, saúde e economia: uma análise estatística sobre o emprego de fontes jornalísticas na cobertura da COP6", a estudante verificou de que forma a imprensa brasileira aborda a conferência.


Marília explica que obteve as informações a partir de pesquisa de textos informativos relacionados à conferência e veiculados em 2014 por jornais integrantes da ANJ (Associação Nacional dos Jornais), assim como a criação de banco de dados num sotware de estatística chamado SPSS.



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Todos vão errar, mas não dê a notícia errada primeiro, afirmam jornalistas

O erro está sempre ao nosso lado e pode servir como fonte de aprendizagem, mas não seja o primeiro a dar a notícia errada. A lição vem dos experientes jornalistas José Roberto Burnier, da TV Globo, e Roberto Gazzi, consultor de O Estado de S.Paulo.


Eles foram os convidados do painel "Ooooops! O que grandes jornalistas aprenderam com seus grandes erros", que ocorreu na tarde de sábado (25) no 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. A moderação ficou por conta de João Paulo Charleaux, editor de política e economia do Nexo.


Foto: Alice Vergueiro
Gazzi considera que a Escola Base é o pior erro de sua carreira de 37 anos. No caso, o casal proprietário de um colégio, uma professora e um motorista foram acusados de abusar sexualmente de alunos. A repercussão levou à indignação da população e à depredação da escola.


À época, Gazzi era editor do caderno de cidades do Estadão. Segundo contou, decidiu dar a notícia após ver um experiente colega da TV Globo noticiando o fato.


Os funcionários da escola receberam indenizações dos veículos de imprensa que divulgaram o episódio. "Todos nos sentimos terrivelmente responsáveis pelo que aconteceu com aquele casal. É uma cicatriz que carregamos", disse Burnier, que durante o caso era editor-chefe e apresentador do Bom Dia São Paulo.


Erros de planejamento também são muito comuns nas vidas dos jornalistas. O consultor do Estadão contou que, em início de carreira, enquanto cobria o presidente Lula, decidiu aumentar o tempo da cobertura e esperar para repassar as informações para a redação. Com a demora, a matéria não foi publicada.


A ansiedade para soltar uma matéria pode, contudo, atrapalhar o trabalho do jornalista. Para Burnier, existe uma espécie de efeito manada na profissão, que ocasiona erros em sequência. "Se um faz uma coisa, vai todo mundo fazer", disse.


Para o repórter da TV Globo, ser o primeiro a dar a notícia não é o mais importante. Segundo ele, o bom jornalismo é baseado em bom senso e investigação cuidadosa.


"Duvide, duvide sempre", completou Gazzi.


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“Está no DNA do governante esconder os dados”, diz um dos fundadores da Abraji

Por Karina Balan




A Abraji apresentou no sábado (25) um levantamento feito nas capitais brasileiras com o mapa das informações prestadas via Lei de Acesso à Informação. A legislação criada há quatro anos ainda enfrenta obstáculo, segundo trabalho coordenado pela associação e feito por alunos da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto).
Foto: Alice Vergueiro
Conforme apresentado no painel "Lei de Acesso à informação nas capitais: Mapa de Acesso", só um quarto dos pedidos solicitados neste ano a câmaras municipais e prefeituras foram atendidos. "A entrega [das informações] ainda é muito pequena, mesmo utilizando todos os recursos possíveis", disse a jornalista Ivana Moreira. Também participaram da mesa os jornalistas Fernando Rodrigues, do UOL, e Marina Atoji, da Abraji.


Para Rodrigues, esconder dados está no DNA do governante. Ele disse que a falta de transparência está enraizada no órgãos públicos brasileiros, que costumam classificar como sigilosos dados muitas vezes banais. "Demora para uma lei mudar uma cultura. É um processo, e necessariamente vai demorar para isso ser implantado", acrescentou.
 
A Lei de Acesso à Informação, em vigor desde 16 de maio de 2012, permite a qualquer pessoa, física ou jurídica, solicitar informações dos órgãos e entidades públicas sem a necessidade de apresentar justificativa para o pedido. Ainda assim, Marina Atoji, que também atua no Fórum de Direito de Acesso à Informações Públicas, explicou que alguns órgãos públicos pedem informações consideradas abusivas, como endereço, profissão, telefone e o motivo da solicitação. "O pressuposto da lei é justamente não ter que explicar o porquê do pedido", disse.

Segundo os palestrantes, a lei também é útil para a comunidade científica, acadêmica e empresários. Aos jornalistas, Marina recomenda que deixem explícito em suas matérias quando conseguirem informações pela lei de acesso. "Coloque lá, no seu texto, para que as pessoas entendam que ela existe, que pode ser utilizada e evocada por qualquer um", insistiu.
      
A dica para solicitar informações é detalhar ao máximo o pedido: "É importante saber exatamente aquilo que você está querendo. Detalhar reduz a chance da resposta do órgão público ser negativa".

Os órgãos têm de 20 a 30 dias para responder a solicitação, sob pena de punições administrativas. "Se ficou em silêncio, ele descumpriu a lei de acesso", afirma Ivana. Por isso, ela recomenda formalizar todo o processo (por e-mail, por exemplo), o que permite ao solicitante  recorrer ao órgão superior, se necessário. Até hoje, porém, não existe registro destas sanções, apesar do baixo índice de respostas.


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É pretensioso achar que a imprensa derrubou Dilma, avaliam jornalistas

Por Bianca Baptista

A imprensa não foi responsável pelo afastamento da presidente Dilma Rousseff. De acordo com Paulo Celso Pereira, de O Globo, e Carla Jiménez, do El País, a mídia teria cometido erros pontuais na cobertura do impeachment, mas culpá-la seria pretensão.  Na palestra "A Mídia e o impeachment: erros e acertos na cobertura da crise política", realizada no sábado (25), no 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, os jornalistas fizeram um balanço sobre a cobertura da crise política nacional. 

"Tem setores que avaliam que a imprensa foi parcial e isso teria causado a queda da Dilma. Não se impôs um foco de resistência tão forte a ponto de virar o jogo. Acho pretensioso demais achar que a imprensa teve esse poder de tirar a presidente", disse Carla. "É claro que existem erros pontuais. Mas se olharmos o macro, está todo mundo tentando fazer o melhor trabalho", completou Pereira.

Segundo o coordenador de Politica da sucursal de O Globo em Brasília, trata-se de um assunto muito complexo, e a imprensa falhou ao tentar esclarecer as questões legais do Impeachment. "Fazemos poucos textos técnicos falando das teses que embasavam as decisões tomadas. O processo de explicar a dinâmica de perda do mandato foi falho", admitiu o jornalista. 

Para facilitar o entendimento de temas mais complexos, os jornais recorreram a infográficos. Pereira ressaltou que é preciso cautela ao utilizar recursos visuais,  com cuidados para especificar a atuação de cada um dos envolvidos no esquema de corrupção. "Ao simplificar assuntos complexos, os infográficos acabam juntando pessoas que estão em situações diferentes. Isso tem que ser feito com cuidado para evitar generalizações. Como deixar claro que não é todo mundo igual?", questionou.  

Carla disse que a ansiedade por informações presente nas novas gerações e estimulada pelas redes sociais estaria exigindo da imprensa "uma verdade que não existe": "É nossa legislação que é falha, não o jornalismo".

Fotos: Alice Vergueiro
A editora-executiva do El País Brasil disse que as redes sociais causaram uma desorganização de informações, capaz de criar um distanciamento entre o público e a mídia. Para embasar sua afirmação, citou a matéria publicada pela BBC Brasil durante os dias que antecederam o impeachment, que mostrou que três das cinco notícias mais compartilhadas daquela semana no Facebook eram falsas. "Acho que a gente devia lançar o adesivo 'na dúvida consulte o jornalista'", brincou. 

Pereira afirmou que, no geral, a cobertura da crise foi bem feita. "Quando você analisa tecnicamente as decisões tomadas, foi muito proporcional ao que estava sendo elencado". O jornalista disse que o excesso de espaço dado a casos como a condução coercitiva de Lula é justificável. "Nesse momento de polarização política a gente dá os tamanhos das reportagens com relação à relevância do político".

O jornalista de O Globo também defendeu a publicação de delações premiadas. "O nosso debate precisa ser o mais técnico possível. Você tem que dar a informação, ainda que não tenha a história completa". Carla complementou: "Se é verdade ou não, é responsabilidade também do Ministério Publico determinar". 

Os dois jornalistas, durante o debate, admitiram que a imprensa demorou a perceber que o impeachment seria aprovado na Câmara.  "No começo do ano, as pessoas ainda não acreditavam que esse processo ia andar. Parecia que era só uma ameaça", contou Carla. 

A análise da cobertura, no entanto, não foi conclusiva, ja que o processo de impeachment ainda não foi concluído. "Mais do que as questões da crítica, precisamos debater o que podemos fazer daqui para frente. É isso que a crise política vai nos ensinar no futuro. Devemos refletir e tentar aplicar no dia a dia", conclui Pereira. 


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Jornalistas denunciam assédio nas redações no encerramento do 11º Congresso da Abraji

Por Jeniffer Mendonça



Após o painel "Imprensa: o que vem depois da crise?", jornalistas ocuparam o palco do auditório da Universidade Anhembi Morumbi com uma mensagem que se disseminou nas redes sociais. "O assédio infelizmente está naturalizado no meio jornalístico. Os relatos podem ser comuns, mas não são normais", declarou Janaína Garcia, neste sábado (25), no encerramento do 11º. Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji.

Há cerca de uma semana a página Jornalistas Contra o Assédio soma mais de 15 mil curtidas no Facebook e alcança meio milhão de pessoas. "Isso mostra como é urgente falar sobre assédio. O jornalista não pode cobrar transparência sem falar de si próprio", afirmou Thais Nunes.

Fotos: Alice Vergueiro
A campanha surgiu após a demissão de uma repórter do portal IG, último dia 17, que denunciou assédio sexual sofrido pelo cantor MC Biel enquanto realizava uma entrevista. "Aquele comentário bobo da fonte, do chefe, do colega de trabalho, na medida em que constrange o profissional não é um elogio, é um assédio", pontuou Janaína.

A campanha ainda mostrou que a editora-executiva do IG, Patrícia Moraes, que escreveu sobre o caso, também foi demitida na última sexta-feira (24).  

Durante o Congresso, a repórter Gabriela Moreira, da ESPN, afirmou ter desistido de apurar certas reportagens por causa das atitudes das fontes, que aparecem com convites para saídas ou jantares. Outros painéis, como "Mulheres no poder" e "III Seminário de pesquisa em jornalismo investigativo", também pontuaram a questão do machismo no ambiente profissional.

As organizadoras afirmam que as denúncias para a página aumentaram após a criação da campanha e pedem que o debate seja ampliado, já que o tema continua a ser um tabu nas redações."Só vamos acabar com o assédio, que é tão comum para todas as jornalistas, quando rompermos o silêncio", enfatizou Thais.


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.


25/06/2016

"Para ser repórter especial, jornalista tem que mostrar vocação", afirma Elvira Lobato



Por Ariane Costa Gomes

Homenageada no 
11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, Elvira Lobato contou as dificuldades encontradas em mais de 40 anos de carreira e deu conselhos para o profissional que deseja se tornar repórter.

Foto: Alice Vergueiro
Estar em campo para realizar um trabalho mais extensos exige também preparação, disposição para ficar um longo tempo imerso em um único tema, além de maturidade, confiança do veículo de comunicação que bancar a pauta e responsabilidade, elenca a jornalista.

"Só a cobertura do dia a dia não credencia ninguém a ser um repórter especial", afirma ela, que participou do painel "Bastidores de uma investigação sobre TVs na Amazônia", com mediação de Natália Viana, fundadora da Pública, neste sábado (25). Na mesa, a repórter destrinchou os bastidores do especial "TVs da Amazônia: uma realidade que o Brasil desconhece", publicado no site
da agência em fevereiro.


Inicialmente pensada como livro, a reportagem tornou-se multimídia e interativa com o uso de textos, imagens -- feitas pela própria Elvira, e vídeos. Na publicação, Elvira faz um retrato do cenário televisivo da Amazônia Legal, território que compreende os Estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão.



Durante 13 anos, a jornalista se dedicou à cobertura do setor de telecomunicações, a experiência a fez conhecer a legislação e os meandros do tratamento jurídico distinto da Amazônia para o restante do Brasil. "Lá as retransmissoras de televisão podem gerar conteúdo local, enquanto em outros lugares as retransmissoras eram apenas uma torre com um retransmissor, não podiam interferir no sinal", explica.


Segundo Elvira, na Amazônia há uma legislação que permite às retransmissoras produzirem até três horas e meia por dia de programação própria e regional e vendam anúncios locais. No restante do país, cada emissora produz seu conteúdo e a retransmissora apenas a reproduz. Na prática, segundo Elvira, as retransmissoras na Amazônia são geradoras. O fato ocorre em 1.737 canais espalhados pelos municípios dos nove estados englobados na apuração.



Para compreender e reportar corretamente, a jornalista reforça a importância de estudar o tema antes de ir a campo. "Conhecia todos os decretos-lei, leis, portarias. Isso fazia parte do meu cotidiano, parte árida e nada charmosa, mas é fundamental", conta.

A reportagem foi produzida durante 11 meses, durante seis meses ela se dedicou a montar um banco de dados e depois foi a campo. Elvira pesquisou onde essas retransmissoras estavam localizadas e quem eram seus donos. Dos 1.737 canais da região, a reportagem mostrou que um quinto pertence a políticos.

Durante a apuração, a profissional conheceu as chamadas "mini-emissoras" e 
os atores envolvidos: políticos, empresários, moradores, técnicos e jornalistas que colocavam o conteúdo da emissora local no ar. O interesse dos donos dos canais aparece de forma nítida no conteúdo transmitido, mostrou o levantamento. Políticos utilizam o meio para atacar adversários e fortalecer a imagem junto ao público.


Além de expor denúncia, a reportagem conta histórias de jovens jornalistas da região. A palestrante conta que, muitas vezes, esses profissionais, formados no Maranhão e no Pará por meio de cursos de capacitação de curta duração, aprendem as funções da profissão na prática. "Era muito mais do que isso. Existe um veículo de comunicação que transmite o conteúdo da comunidade e profissionais que se orgulham de fazer parte dessa realidade que nós não conhecíamos", conta.




O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Com apurações autônomas, reportagens anteciparam desdobramentos da Lava Jato

Por Luan Ernesto Duarte

Repórteres envolvidos na cobertura da Operação Lava Jato, Filipe Coutinho (Época), Flavio Ferreira (Folha de S.Paulo) e Thiago Prado (Veja) mostraram no 11° Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo exemplos de reportagem que fugiram do lugar-comum na cobertura do maior escândalo de corrupção já investigado no Brasil. 

Com apurações autônomas, os trabalhos se anteciparam a desdobramentos da investigação. 

O trabalho de Filipe mostrou que o ex-presidente Lula e sua família viajaram pelo menos 111 vezes ao sítio em Atibaia cuja propriedade é atribuída ao político. Durante a apuração, ele mapeou os dados a partir das diárias de sete servidores que integram a equipe de segurança do ex-presidente. Por meio do Portal da Transparência, ele constatou que um grande número das viagens foi a Atibaia.

"Eu usei o Portal da Transparência para ver os gastos diretos do governo e fazer um levantamento consistente das diárias e passagens feitas pelos seguranças", explica Filipe. O repórter afirma que o Evernote e o Excel foram ferramentas importantes na apuração.


Foto: Alice Vergueiro
Flavio Ferreira, repórter do jornal Folha de S.Paulo, revelou que a Odebrecht bancou a reforma do sítio em Atibaia. Sobre o trabalho, Flavio ressaltou a importância do pesquisa de campo, além da produção de documentos pela força-tarefa da Lava Jato.

A reportagem revelou que a construtora forneceu 15 de seus funcionários, mais um engenheiro, que ficaram responsáveis por trabalhar no local. "Achei que seria interessante seguir em frente com essa matéria porque se tratava de um grande personagem. Cheguei a pensar se o Lula teria, de fato, envolvimento na Lava Jato", explica.

Flávio contou ter ficado vários dias na região do sítio, em Atibaia, fazendo amizades e conversando com as pessoas para apurar a reportagem. "Tive que ir tomar café numa padaria para conversar com o gerente e pegar a confiança dele", comenta Flavio sobre a fonte que confirmou a presença constante da mulher de Lula na cidade.

Thiago Prado, repórter da Veja, foi o autor da reportagem intitulada "Conexão Uruguai", que revelou a compra de um apartamento de R$ 7,5 milhões por Nestor Cerveró, ex-diretor internacional da Petrobras. A negociação foi omitida da declaração de renda de Cerveró, que morou no imóvel por cinco anos. 

A apuração de Thiago começou a partir de informações repassadas por uma pessoa que tinha desavenças com Cerveró. O repórter conta que confirmou a informação após acessar documentos do ex-dirigente da Petrobras pelo sistema cartorial brasileiro. 


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Novas ferramentas na web expandem capacidade investigativa de jornalistas



Por Isabella de Luca

O impacto da tecnologia no jornalismo nos últimos vinte anos ainda exige adaptação contínua, o que gera preocupação com o futuro da produção e também com o consumo de notícias. Mas algumas ferramentas de apuração abrem novas possibilidades aos repórteres. Foi sobre essas técnicas de busca que Paul Myers, especialista em pesquisa e investigação online da BBC falou nesta sexta-feira (25), no 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.

Fotos: Alice Vergueiro
Myers desenvolveu estratégias a partir de mecanismos de busca que compartilhou em treinamentos com colegas jornalistas de veículos como "The Guardian", "CNN" e "The Daily Telegraph".  Uma delas, utilizada para encontrar informações sobre empresas, permite que o usuário descubra quem é o responsável e em que país está hospedado o site da empresa. Basta colocar o endereço do site no portal who.is. "Se você quiser descobrir a identidade de um anunciante que aparece no seu Facebook, vá a esse site (Nesse momento, Myers mostrou o procedimento utilizando o anúncio de uma bolsa da marca Michael Kors). Nesse caso, o servidor está na China, então não acredito que seja verdadeiro [o produto]", disse.

Outra ferramenta bastante útil para jornalistas, segundo ele, é a "ImageMetaData". Ao abrir a foto de perfil de uma pessoa no Twitter e, em seguida, com o botão esquerdo, copiar o link da imagem, todas as informações sobre a foto aparecerão num quadro: é possível saber quando e onde foi tirada, qual o tipo da câmera e inclusive o ângulo em que a foto foi tirada. Já o Geofeedia permite que o usuário delimite um perímetro urbano para mapear postagens de redes sociais feitas a partir daquele local. Dessa forma, é possível monitorar os posts feitos em espaços ou eventos específicos como shoppings, universidades e centros de convenções.


O Facebook também é uma plataforma que pode servir para a apuração de dados sobre uma pessoa. Na página e-mail-format.com, o usuário fornece o local de trabalho da pessoa investigada e rapidamente obtém seu e-mail, o que pode ser usado para acessar o perfil de alguém difícil de ser encontrado na rede social. Ir ao Graph.tips e oferecer o nome de usuário da pessoa no Facebook permite descobrir todos os seus comentários e "curtidas".

"Se eu estou fazendo uma apuração sobre uma empresa que foi fechada, posso visitar o archive.org e acessar um site que não existe mais", disse Myers.

Segundo ele, todas essas ferramentas estão disponíveis para consulta e são de uso livre. Ele alertou que o risco está em fazer uso dessas ferramentas para fazer algo ilegal, como utilizar a senha de alguém ou fazer um perfil falso em uma rede social.

Existe, no entanto, um aplicativo cujo sistema de segurança é poderoso para evitar que informações pessoais se espalhem pela rede, como Whatsapp e Telegram. "É muito difícil de usá-los para uma investigação", garantiu Myers.

Confira aqui essa e outras ferramentas de busca mencionadas durante a palestra: www.researchclinic.net

O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.