29/06/2017

Coberturas internacionais que envolvem riscos exigem pré-produção e cuidados dos repórteres

Johanna Nublat, Patrícia Campos Mello e Fabiano Maisonnave discutem a cobertura da crise migratória. Foto: Alice Vergueiro.

Por Géssica Brandino

Estabelecer contatos com outros profissionais que já estiveram em campo e pesquisar ao máximo o local são essenciais para aprofundar a cobertura e aproximar o leitor de outras realidades. O repórter, colunista e enviado especial da Folha de S.Paulo em Manaus, Fabiano Maisonnave, acompanhou no início do ano a travessia de brasileiros que tentam chegar aos Estados Unidos via Bahamas. Para contar a história que desejava, Fabiano recorreu à técnica da infiltração, se passando por outra pessoa e omitindo a informação de que era repórter, prática que ele próprio não recomenda. “Não é uma decisão fácil. O risco é enorme”, destaca.

Maisonnave havia estudado a fundo a realidade da migração no território e levantado todos os riscos que teria ali. “Jornalista precisa ter mais dúvidas do que certezas”, aconselha. Fazer a travessia até os Estados Unidos se mostrou inviável – era preciso pagar US$ 12 mil dólares, o que o jornal negou – mesmo assim, Fabiano pode viajar ao lado de brasileiros deportados e contar a história daqueles que estiveram presos no Panamá após a tentativa de atravessar a fronteira. 

Já a jornalista Johanna Nublat teve um percurso diferente para chegar ao destino de reportagem: a capital da Coreia do Norte. Ela foi correspondente na China pela Folha de S.Paulo e o desejo de conhecer a capital norte-coreana era antigo. A oportunidade veio no último ano, a convite da associação de cientistas sociais do país, com visto de trabalho pela embaixada. Mesmo ciente das limitações que teria ao fazer uma viagem guiada, a repórter aceitou e passou sete dias em Pyongyang, capital pelo país, em setembro.

“Foi a melhor experiência da milha vida, apesar de querer sair de lá todos os dias”, relembrou a repórter. O registro da viagem foi feito no bloco de anotações e num diário de sensações, descrevendo o medo que sentia de infringir alguma das regras básicas no país e acabar presa. “O que mais dificultou foi ter que ficar o tempo todo pisando em ovos”, sintetiza.

Na lista de seis mandamentos que Johanna formulou para jornalistas que desejam ir a Pyongyang, lições que seguiu à risca durante a cobertura: nunca se afastar do guia; não dobrar o jornal com a foto de Kim Jong-un, líder do país; não dizer Coreia do Norte, pois lá não se fala assim; não levar livros perigosos; não tirar fotos despreocupadamente; e levar dinheiro, porque não é possível usar cartão de crédito ou débito.  

Atenta às brechas e sem fazer abordagens bruscas ou contrariar os guias que lhe acompanhavam, Johanna conseguiu fazer questões que pretendia. Essencial para isso, foi a troca de informações com outros profissionais que estiveram na Coreia do Norte anteriormente e lhe ajudaram a perceber as limitações que teria. Para Fabiano, o contato prévio e a pesquisa feita pela equipe da Folha também foram essenciais. “Uma reportagem bem-sucedida raramente é trabalho de uma pessoa só”, frisa. 

Acesse as reportagens:



O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Nenhum comentário:

Postar um comentário