30/06/2017

Como cobrir epidemias com poucos recursos

Acesso a dados da zika e da febre amarela foram problemas na apuração das reportagens

Fabiana Cambricoli (Estadão) em palestra sobre a evolução de crianças de microcefalia. Foto: Alice Vergueiro.

As formas de contar as epidemias recentes de zika e febre amarela com orçamentos enxutos para acompanhamento próximo ganharam destaque nesta sexta, 30, na mesa “Histórias de epidemias: as vidas afetadas pela zika e pela febre amarela”, no 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, da Abraji.


Fabiana Cambricoli, do jornal O Estado de S.Paulo, acompanhou por um ano a evolução de crianças com microcefalia causada pelo zika e a evolução da epidemia. “Ao contrário da febre amarela, que é uma doença mais aguda, a microcefalia é uma sequela que fica para a vida das crianças.”

A zika, transmitida pelo mosquito Aedes Aegypti, também responsável pela transmissão da dengue, ao infectar grávidas pode ocasionar no feto danos neurológicos e, em casos mais graves, microcefalia, ou seja, crescimento anormal do cérebro.

Segundo dados recentes do Ministério da Saúde, desde o início da epidemia de zika foram documentados 13.719 casos suspeitos, 3.245 em investigação e 2.722 casos confirmados. Em maio deste ano, foi declarado o fim da situação de emergência relacionada à zika.

Cambricoli afirma que, mesmo a matéria possuindo um foco nas histórias humanas relacionadas à síndrome congênita do zika, foi importante demonstrar, a partir de dados (que se tornaram mais difíceis de serem obtidos conforme a epidemia diminuiu de intensidade), que o que estava sendo mostrado era uma situação geral e não algo isolado.

Segundo a repórter do Estadão, considerando que a epidemia atingiu o nordeste brasileiro de forma mais intensa, a questão da distância e dificuldade de acesso foram problemas para a apuração. A solução foi o contato constante por internet com as mães dos bebês com microcefalia e poucas visitas presenciais.

Mesmo sendo uma boa forma de contornar as dificuldades orçamentárias para viagens, não é possível depender só de internet e telefone, segundo Ana Lúcia Azevedo, repórter do Jornal O Globo. “Não se cobre doença por telefone, você precisa ir a campo.” Azevedo foi uma das responsáveis pela cobertura recente do surto de febre amarela em Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. A doença pode causar danos no fígado e em casos graves levar à morte.

A repórter do Globo afirma que a febre amarela é uma doença antiga no país, o que não necessariamente a torna conhecida. “Até as pessoas mais velhas das cidades afetadas, em áreas de recomendação de vacina, não sabiam o que era a febre amarela.”

Dados

As jornalistas do Estadão e do Globo também afirmaram que, durante a apuração de suas matérias, tiveram dificuldades para ter acesso a dados recentes e completos sobre os temas que cobriam. A dica, segundo elas, é saber exatamente o que pedir e perguntar para os órgãos oficiais de saúde. Cambricoli, além disso, afirmou ser importante conhecer e saber usar o DATASUS, sistema que disponibiliza dados e informações de saúde.

A mesa foi mediada pela jornalista Carla Jimenez, do El País.

A reportagem da jornalista Fabiana Cambricoli pode ser encontrada aqui e a de Ana Lúcia Azevedo aqui.

O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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