30/06/2017

“Delação sem prova não vale nada”, afirma ex-delegado da PF na Lava Jato

Marcio Anselmo trabalhou até o começo do ano na equipe de investigações da Lava Jato

André Guilherme (Valor Econômico) e Marcio Adriano Anselmo (Polícia Federal) discutem os bastidores da Lava Jato. Foto: Alice Vergueiro
Por Ana Carolina Marcheti


Responsável pela investigação originária do escândalo de corrupção na Petrobras, Marcio Adriano Anselmo é delegado da Polícia Federal há onze anos e saiu da Operação Lava Jato em fevereiro. Para ele, um dos papéis principais da operação, para o público em geral, foi que desde as primeiras fases das investigações as informações que antes ficavam escondidas passaram a ser democratizadas, através dos portais eletrônicos.


Anselmo, que participou nesta quinta-feira, 29, da palestra “Por dentro da Lava Jato” no 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, da Abraji, conta que tem uma relação às vezes positiva e por vezes negativa com os jornalistas, “mas no geral o saldo é mais positivo”.

Se por um lado esses profissionais promovem uma maior transparência ao público, eles também podem atrapalhar o processo quando vazam uma informação apenas com base em uma delação (que por si só não tem um papel sem provas concretas), pois se alguém tem relação com o investigado, essa pessoa pode destruir as provas dificultando possíveis condenações, segundo Anselmo.

O delegado também comenta que alguns jornalistas precisam de um furo e dessa forma falam com o entrevistado por protocolo, mas ao invés de publicar o que foi dito, publicam exatamente o contrário. Às vezes também há mentiras nas notícias, nas palavras de Anselmo: “falavam que alguém estava fazendo uma delação e na verdade eu sabia que a pessoa estava detida embaixo da minha sala”.

Rodrigo Janot, em suas palavras, foi o melhor procurador geral que o Brasil teve nos últimos anos, mas, para Anselmo, “ele poderia não encarar a polícia como inimiga”. E ressalta: “15% das Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADINS) que ele promoveu tinham o objetivo de dificultar ou diminuir o trabalho dos policiais”.

Hoje trabalhando na Corregedoria da Superintendência da PF no Espírito Santo, Anselmo acredita que a polícia, por ser subordinada ao poder executivo, é muito burocrática, e não possui autonomia. Na sua opinião, se ela fosse ligada ao judiciário ou tivesse mais liberdade para gerir sua própria administração e administrar seu dinheiro, os processos fluiriam melhor.

Anselmo conta que na época da Lava Jato trabalhava muito e às vezes estava no escritório até às 22 horas e ainda via da sua janela jornalistas de plantão. Quando seu pai teve que fazer uma cirurgia no coração, levou seu notebook e trabalhou na UTI. Ele acredita no trabalho que fez, mas está feliz de deixar as investigações. Conta que era exaustivo e chegava a ficar doente, não via a família. “Eu não gostaria de voltar às operações”.

O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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