29/06/2017

Diversidade racial e de gênero avança pouco nas redações, relatam jornalistas

Desigualdade se reflete na ocupação de cargos de liderança e gera discussão sobre a influência do perfil do jornalista na realização de reportagens 

Renata Moraes (ImpulsoBeta), Paula Martins (ONG Artigo 19) e Claudia Nonato (ECA/USP) falam sobre as questões de gênero no jornalismo.  Foto: Alice Vergueiro

Por Jeniffer Mendonça e Sheyla Melo

Segundo levantamento realizado em 2012 pela FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas) e a Universidade Federal de Santa Catarina, as mulheres representam 65% das redações, mas não estão presentes em cargos de liderança em grandes veículos. “O jornalismo é mais um segmento que reflete que homens e mulheres estão longe de atingir um nível de igualdade”, afirmou Renata Moraes, CEO e fundadora da ImpulsoBeta, empresa de estratégia para promoção da diversidade de gênero no mercado de trabalho.


Com moderação de Paula Martins, da ONG Artigo 19, Moraes e a pesquisadora do Centro de Pesquisa Comunicação e Trabalho (CPCT-ECA/USP) Claudia Nonato discutiram a diversidade racial e de gênero nas redações nesta quinta-feira (29), no 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji.

A fundadora do ImpulsoBeta deu um panorama sobre a presença das comunicadoras no Brasil e no mundo, apontando que o estereótipo de gênero criado acerca das competências das mulheres dificulta a ascensão em esferas de poder. Apontou, ainda, que a maternidade e a feminilidade (aparência física) são os principais pontos que induzem a reprodução do machismo.

“As expectativas criadas em relação a homens e mulheres são diferentes. Desde cedo o homem é incentivado a progredir na carreira e eles são promovidos mais facilmente olhando apenas o potencial. Quando se olha uma menina de cinco, 15, 20 anos, ela é vista como potencial mãe. Qualquer minoria, sejam mulheres, negros, LGBTs, vai ter a barreira mais alta para alcançar esses postos e quando alcançam há uma tensão para se equilibrar todos os papéis esperados”, afirmou Moraes.

Em relação a negros e pardos, a pesquisadora do CPCT-ECA/USP apontou em seus estudos de mestrado e doutorado que eles correspondem a menos de 10% dos profissionais nas redações. Além disso, frisou que ainda não há dados disponíveis sobre a presença de comunicadores gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, travestis e transgêneros.

Essa desigualdade, segundo Nonato, começa no acesso ao ensino superior. “As empresas de comunicação são constituídas por homens brancos de classe média, assim como as universidades que formam esses jornalistas, apesar da implantação de ações afirmativas. Costumam colocar a exceção como regra quando veem uma mulher negra num posto de poder, por exemplo”.

Ela ainda apresentou uma pesquisa do coletivo Vaidapé, divulgada nesta semana, que mostra que nas sete principais emissoras nacionais apenas 3,7% dos apresentadores são negros. Destacou ainda que, se um dia de programação fosse composto apenas por programas com apresentação, os apresentadores negros ocupariam somente seis minutos na programação de São Paulo.

Claudia Nonato frisa que esse cenário se reverbera na abordagem das pautas, colocando essas populações como protagonistas apenas em datas comemorativas, como dia do Orgulho LGBT, Dia da Mulher, Dia da Consciência Negra, ou em casos de violência.

Por outro lado, iniciativas de jornalismo independente revelam, para ela, uma nova abordagem, já que a maioria delas apresenta maior pluralidade. “A principal dificuldade dessas iniciativas ainda é o financiamento, mas o acesso às tecnologias facilitou o caminho para a criação de veículos alternativos, que é onde estão pautas mais interessantes”, opinou.

Nesse sentido, o público questionou as palestrantes sobre as propagandas que estão apresentando maior presença de negros e casais homossexuais, por exemplo. Para a pesquisadora da USP, “a diversidade entrou na moda, virou um produto que vende, que amplia os cliques e faz subir a audiência. Não podemos ser ingênuos, mas pelo menos traz maior discussão sobre o tema”.

Já Renata Moraes se coloca como otimista ao ver os temas sendo abordados, apesar do interesse de grupos empresariais ser restrito e ter como objetivo cumprir cotas ou metas. “Essa ruptura [estrutural] leva tempo para empresas que não são de capital aberto e outras em geral, se não tiver políticas públicas. Na Europa, tem cota para mulheres em conselhos. No Brasil, foi aprovado pelo Senado lei de cota de mulheres em empresas públicas e mistas”.

Ela também sugere o empreendedorismo como um caminho a ser explorado. “Isso está muito em evidência no jornalismo porque os modelos de negócio estão em risco. Temos quase 50 milhões de empreendedores no país e eu nunca tive essa perspectiva na universidade”, concluiu.

O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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