30/06/2017

Jornalistas contam bastidores de reportagens premiadas em situações de violência e crises políticas

Abraji Talks reúne dois exemplos de trabalhos que contrariaram o ceticismo sobre o jornalismo atual e expõem crimes cometidos ou ocultados pelo Estado

Esta é a segunda edição do AbrajiTalks, que segue os mesmos padrões de depoimentos individuais do TEDTalks. Foto: Alice Vergueiro.

Por Agnes Sofia Guimarães

Na madrugada do dia 6 de janeiro de 2016, um grupo de manifestantes que acampavam em frente ao Palácio da Prefeitura de Apaztzingán (cidade mexicana com pouco mais de 120 mil habitantes) foi surpreendido por gritos de “¡Mátenlos como perros!” (Matem-os como cachorros) vindos de policiais armados e que não demoraram a atirar contra os acampados. Às vítimas, só restou a defesa com paus e armas brancas, além de rendições respondidas com execuções à queima-roupa pelos policiais. Horas depois do primeiro ataque, familiares e amigos vieram socorrer os sobreviventes quando foram vítimas de mais disparos. Ao todo, foram 16 mortos e dezenas de feridos, incluindo mulheres e crianças. 

Contrariando a versão oficial emitida pelo governo (de que os mortos e feridos invadiram a prefeitura e entraram em confronto com a polícia), a jornalista Laura Castellanos foi a campo investigar o ocorrido, e após ouvir quase quarenta relatos anônimos (entre sobreviventes, testemunhas e médicos que atenderam as vítimas), escreveu a reportagem Fueron los Federales, vencedora do Prêmio Nacional de Jornalismo e o Prêmio Latino-Americano de Jornalismo Investigativo.

Já em Brasília, Vinicius Sassine, jornalista da sucursal do jornal O Globo, precisou superar a rotina atribulada das coberturas do processo do impeachment e dos desdobramentos da Lava Jato para contar a história de Gabriel, que morreu aos 12 após perder um transplante de coração que não aconteceu pela recusa da Força Aérea Brasileira de realizar o traslado do órgão. Com a boa repercussão da reportagem, Sassine conseguiu aval para investigar a correlação entre outros traslados negados pela FAB e as viagens concedidas a autoridades brasileiras, nunca negadas graças ao decreto federal de 2002, que torna o serviço obrigatório. Com o cruzamento de dados do Ministério da Saúde e das Forças Armadas, surgiu uma série de reportagens que rendeu ao jornalista o Prêmio Rei da Espanha de Jornalismo.

Os trabalhos de Laura e Vinicius foram as duas histórias contadas no Abraji Talks, sessão do 12º Congresso de Jornalismo Investigativo, da Abraj, que convida jornalistas a contarem os bastidores de suas histórias dentro do formato de depoimentos individuais utilizado pelo projeto TedTalks.

Da intuição à insistência 

Algo em comum entre duas duas histórias é o enfrentamento às dificuldades impostas por órgãos públicos: no caso de Laura, foram necessários quase três meses para a publicação da matéria, tempo em que recorreu ao apoio internacional da ONG Artigo 19 para superar a censura enfrentada e ameaças contra a equipe da jornalista e das próprias fontes das reportagens. Enquanto isso, Vinicius precisou ser insistente para que o Ministério da Saúde divulgasse as informações necessárias para compreender a situação do transplante de órgãos infantis no Brasil. Enfrentamentos ao Estado que não foram as únicas dificuldades encontradas pelos jornalistas, que também se viram diante dos problemas apontados como típicos das reportagens nas redações atuais, como o tempo de dedicação incompatível às exigências diárias e até mesmo a falta de apoio para que as pautas possam vingar.

Mas ao serem questionados sobre o tema, ambos foram otimistas. Para Laura, mais do que experiência profissional para enfrentar situações de risco como as coberturas de conflito com as quais trabalha há vinte anos, é necessário desenvolver uma espécie de intuição, em que o jornalista se prepara para escolher rotas não-convencionais, mas que podem assegurar que a reportagem encontre suas respostas. Vinicius já é enfático sobre o faro para aproveitar situações de instabilidades políticas. “Estamos vivendo um momento de descrédito das redações, mas os jornalistas precisam se lembrar que a reportagem é feita do caos, e estamos diante de um momento para passar coisas da nossa realidade a limpo”.

O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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