30/06/2017

Mulheres jornalistas sofrem com assédio e falta de segurança no trabalho, aponta pesquisa

Levantamento qualitativo realizado por Abraji e agência Gênero e Número teve assédio moral e sexual como reclamações recorrentes entre profissionais brasileiras

Natália Mazotte (Gênero e Número), Verônica Tostes (UFRJ), Alana Rizzo (Abraji) e Maiá Menezes (O Globo) em painel sobre gênero no jornalismo. Foto: Alice Vergueiro.
Por Maria Silvia Lemos e Sheyla Melo

Embora as mulheres sejam maioria nas redações brasileiras, assédio sexual e moral, desigualdade salarial e falta de segurança no trabalho são situações recorrentes pelas quais passam as jornalistas de diferentes veículos de comunicação. Este cenário foi descrito durante a apresentação dos resultados parciais da pesquisa Mulheres na Mídia, realizada pela Abraji, em parceria com a Gênero e Número, agência independente de jornalismo de dados. 
Os dados expostos durante o 12º Congresso da Abraji, em São Paulo, foram coletados em grupos focais com depoimentos de jornalistas de redação e freelancers nas capitais São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Porto Alegre. Ao todo, 35 mulheres foram ouvidas nesta primeira parte qualitativa da pesquisa.

O assédio apareceu como temática, prevalecendo em todos os grupos focais e na fala de 61% das mulheres. “Foram relatados desde assédios episódicos até contínuos e crescentes. Tem relatos de mulheres perseguidas durante meses por colegas ou fontes, a ponto de se sentirem intimidadas e com dificuldade de trabalhar”, afirmou Verônica Tostes, socióloga da UFRJ e uma das coordenadoras do estudo.

Para Alana Rizzo, repórter da Revista Época em Brasília e diretora da Abraji, o assédio pelas fontes acontece com maior intensidade na cobertura política. “Em Brasília você lida o tempo inteiro com autoridades que usam dessa autoridade para assediar não só jornalistas”, conta Rizzo, responsável pelo grupo focal realizado na capital. “Todo mundo tinha um caso para contar”.

Além do ataque individual e às escondidas, em salas e ambientes de trabalho vazios, as mulheres relatam assédios acontecidos às claras e coletivamente, em momentos de sociabilização de colegas homens. Segundo Tostes, esse tipo de investida figura-se como mais pernicioso que o individual porque passa um clima de normalidade, aceitabilidade, e tende a ser banalizado e, portanto, de difícil denúncia.

O assédio moral na gravidez apresentou-se como muito frequente, assim como o controle do vestuário feminino. Este último foi descrito ora como restrição a vestimentas, para “passar seriedade” e “não distrair colegas homens ou fontes”, ora instrumentalizando o corpo da profissional. As participantes relataram terem escutado frases como “Aproveita que você tem isso e use a seu favor” e “sugiro que você bote um decote bem caprichado”.

A diferença salarial é apresentada por Natália Mazotte, diretora de conteúdo e dados da Gênero e Número, como mais uma evidência da desigualdade que continua existindo. A média dos salários das mulheres é de R$ 3.221, contra R$ 4.668 para os colegas homens, segundo Ministério do Trabalho e Emprego.

Também foi assunto recorrente o desequilíbrio na distribuição das pautas nas redações. “Uma das participantes relatou que descobriu uma pauta e teve ela redistribuída na redação a um colega homem. Isso aparece em vários grupos focais”, conta Tostes.

O levantamento quantitativo, segunda parte da pesquisa, foi lançado durante a palestra. A intenção é considerar a experiência de jornalistas em todo o território nacional. A pesquisa está aberta e pode ser respondida por meio deste formulário. (http://bit.ly/genero-abraji)

Para Maiá Menezes, jornalista d´O Globo e diretora da Abraji, a pesquisa e seus resultados tendem a fomentar a discussão sobre a situação da mulher no jornalismo. “É uma situação muito angustiante e muito silenciosa”, afirmou. “(Essa situação) se travestia em sofrimento interno e em um grau que dificultava a ascensão na carreira e na segurança da atuação no jornalismo”, completou.

Menezes destacou a importância e a atualidade deste assunto e reforçou o pedido para que jornalistas de todo o país respondam a pesquisa, para que os resultados finais possam ser concluídos em agosto deste ano.

O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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