30/06/2017

"O erro é um tabu no jornalismo brasileiro", afirma Thaís Bilenky

Repórteres relatam falhas na cobertura e como os equívocos geram aprendizado sobre o fazer jornalístico

Thaís Bilenky (Folha de S.Paulo) fala sobre o que grandes jornalistas aprenderam com seus erros. Foto: Alice Vergueiro.
Por Jeniffer Mendonça

Casos emblemáticos como o da Escola Base costumam causar arrepios nas redações. O painel "Ooops! O que grandes jornalistas aprenderam com seus erros", realizado durante o 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, abordou a importância da discussão das falhas na produção de reportagens como um caminho para a aprimorar o jornalismo. 

Para a repórter Thaís Bilenky, da Folha de S. Paulo, os profissionais não discutem a questão por excesso de confiança e medo da exposição de uma possível falha. "A gente comete erro sobretudo com o que a gente sabe melhor porque não toma o cuidado de reler ou rever. O cuidado é muito maior quando se aborda um assunto que não se sabe. Sempre desconfie da sua certeza", opina.

Esse sentimento foi relatado pela jornalista Katia Brembatti, da Gazeta do Povo, do Paraná. Em 2010, com a série Diários Secretos, que revelou a existência de esquema de desvio de dinheiro na Assembleia Legislativa do Paraná a partir da consulta dos diários oficiais, o jornal publicou erroneamente uma foto, que seria de uma das filhas do diretor-geral do órgão. A informação era de que Isabel, que seria servidora da Assembleia e foi nomeada quando era menor de idade, gerenciava uma fazenda em Goiás que tinha seu nome, sendo, portanto, uma “funcionária fantasma”.

Durante a apuração, um dos membros da equipe viu uma mulher num hotel a poucos metros de distância e questionou a uma pessoa no local se ela era a mesma Isabel. A resposta foi afirmativa. Porém, a jovem era Luciana, irmã dela. As informações estavam corretas, mas a foto, não. “Acabou que ela também tinha irregularidades na Assembleia, como a gente mostrou, mas a responsabilidade era total nossa. Foi o dia em que o Jornal Nacional também teve que pedir desculpas”, relatou.

A série, que foi realizada pelo jornal em parceria com a RPC, afiliada da Rede Globo, recebeu o Prêmio Esso de 2010 e o Prêmio Latinoamericano de Jornalismo Investigativo de 2011. "Aquele erro foi apenas 1% representativo do que a reportagem estava mostrando, se fosse apenas um perfil dela, teria sido pior”. Ela sinaliza que a ausência do contraditório aumenta a probabilidade de erros. “O problema maior da matéria foi o ‘outro lado’. Foi muito difícil, mesmo com uma semana de antecedência tentando contato", complementou Brembatti.

As palestrantes também destacaram as diversas situações em que os equívocos acontecem, seja numa grande investigação complexa ou quando o jornalista se restringe à declaração de uma fonte. "É diferente pedir um atestado de óbito numa grande investigação e quando você está entrevistando uma pessoa que acabou de perder alguém para comprovar uma morte", relatou Katia sobre um perfil de um palhaço que mentiu sobre a morte da esposa, escrito por um colega.

Thaís, a partir de exemplos de veículos internacionais como The New York Times, apontou também que faltam regras de transparência na condução das matérias. "Se colocarem uma pesquisa [na matéria], eles vão colocar hiperlinks. O rastro da notícia é mais claro e eles ainda são questionados porque lá existe a cultura de enxergar o jornalismo como ator político", relata.

Além disso, pontuou que é necessário estar atento e crítico à origem das informações e o contexto em que elas estão inseridas. "No Brasil, a relação com o erro muda ao cobrir política. O meio político usa muito o jornalismo como instrumento para alcançar objetivos".

O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

2 comentários:

  1. Salvo engano, João Paulo Charleaux é o criador/mediador dessa mesa " Ooops " que se apresenta em todos os Congressos da Abraji. Penso seria adequado tê-lo também como uma das fontes dessa matéria. Abraços, Sergio Gomes

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  2. Thaís Bilenky, parabéns pela entrevista, imparcial e que deixou o Mito se expressar https://www.youtube.com/watch?v=0PXAC59HyVE

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