30/06/2017

Para Carlos Wagner, é preciso fugir dos "relatórios" da Lava Jato para combater "voto de cabresto" em 2018

Homenageado do 12º Congresso da Abraji, repórter gaúcho ressalta a importância de não se debruçar apenas sobre as teses dos juízes e delegados do caso   

Carlos Wagner, jornalista homenageado no prêmio especial da Abraji de contribuição ao jornalismo. Foto: Alice Vergueiro.
Por Cristiane Paião, Ruam Oliveira e Priscila Sanches

Ao contrário do que muitos poderiam imaginar, quando Carlos Wagner subiu ao palco na tarde desta quinta-feira (29), com toda a sua "irreverência" subiu também um outro objeto, digamos, inusitado: um pedaço de guardanapo de papel que, aliás, era o rascunho do próprio discurso de agradecimento do jornalista que faz questão de deixar bem claro o lado em que gosta de jogar, isto é, o da reportagem. Segundo ele, existem "apenas" dois lados neste mundo: o do "bem", onde estão os repórteres; e o do "mal", onde ficam os editores...

Tudo não passa, é claro, de uma grande brincadeira que os colegas do gaúcho explicam que se estende por toda a redação. Segundo ele, o repórter tem mesmo que ser "o cara mais temido" pelo editor. “Tem que ter a ambição de querer ser lembrado (...) O repórter é o cara que anda no escuro e não tropeça, e que o editor pensa: o que ele quer agora?", provoca Wagner. 

Para o homenageado do 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji a relação entre editores e repórteres é mesmo "conflituosa", mas é uma das principais que devemos buscar no dia a dia da profissão. Ex-repórter especial do jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul, onde se "aposentou" em 2014 com mais de 30 anos de jornalismo, Wagner se orgulha de conhecer “cada fim de mundo da América do Sul”, e já ganhou mais de 30 prêmios, entre eles sete Prêmios "Esso" Regionais, e escreveu 17 livros.

No discurso, entraram críticas às investigações da operação mais comentada no momento: a Lava Jato. O jornalista relembrou a recente história de liberdade de imprensa no Brasil, e ressaltou o protagonismo que o repórter tem ao desempenhar um papel fundamental na construção diária da democracia, a cada manchete.



Entre brincadeiras sobre a profissão e sua rotina de trabalho, Wagner disse ter dúvidas em relação ao que está sendo publicado, e criticou o fato de a imprensa não realizar uma investigação independente. “Nós estamos publicando relatórios”, provocou.

Para Wagner, existem inúmeros outros interesses que estão relacionados aos bastidores e que estão sendo deixados de lado. “A publicação apenas de teses de delegados e juízes carece de jornalismo com investigação própria, e isso por conta de redações reduzidas”, destaca Wagner. Por isso, segundo ele, é possível que estejamos cometendo o mesmo erro que cometemos antes, no caso "Escola Base", conhecido como um dos maiores erros da história do jornalismo no Brasil.

Por fim, Wagner encerrou sua fala apontando que as redações atualmente estão caminhando para uma quebra de hierarquias, onde o repórter é responsável por todos os processos da reportagem, desde escrever até editar e publicar, e ressaltou que essa pode ser uma mudança extremamente positiva.

Todos os anos durante o Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, a Abraji homenageia uma figura considerada importante para o jornalismo brasileiro. Na edição de 2016, a homenageada foi Elvira Lobato, que destacou características necessárias para ser um bom repórter especial. 

Veja também:

O documentário exibido na cerimônia, "Carlos Wagner: o repórter na estrada" está disponível, na íntegra, no YouTube da Abraji.



O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Um comentário:

  1. Ainda vou escrever o discurso que faria nessa ocasião solene para que os interessados saibam, DE VERDADE, de onde vem e o que tem sido o "Projeto Repórter do Futuro". Muita gente ( pessoas e instituições ) é responsável por essa obra de interesse público ,em andamento. Ontem mesmo, após a cerimônia, conversei com o Presidente da Abraji, Thiago Herdy , para explicar meu gesto de " recusa " em receber "pessoalmente" um reconhecimento tão importante. Não se tratou, evidentemente, de falta de consideração ou gesto de descortesia da minha parte . Pelo contrário. Compreendi que era meu dever, uma questão de justiça, dar os devidos créditos a quem os merece. Essa comenda criada pela Abraji para reconhecer os projetos que têm contribuído para o desenvolvimento do jornalismo no nosso País, acertou quando apontou o "Observatório da Imprensa" e o "Transparência Brasil" nos dois últimos anos. E também atingiu o alvo ao jogar luz sobre o " Projeto Repórter do Futuro " que, de alguma forma, já contribuiu para estimular diretamente 700/800 estudantes frequentadores de seus diversos cursos modulados ( e viagens de estudo/reportagens) a não aceitarem como natural um certo jornalismo preguiçoso praticado por aí . Isso sem falar nos que têm acessado as "Rodas de Conversa " com os ganhadores do Prêmio Vladimir Herzog. Estamos agora a caminho da sexta edição . Da mesma forma, não se pode esquecer os beneficiados ( a distância) pelas transmissões da Escola do Parlamento / Câmara Municipal de São Paulo ( módulo "Descobrir São Paulo" ). Como ignorar as palavras do Professor Chaparro , um dos 7 especialistas convocados pelo Ministério da Educação para elaborar a proposta das "Novas Diretrizes Curriculares dos Cursos de Jornalismo" ?
    " O Projeto Repórter do Futuro antecipa, desde o seu início, conceitos e ideias que dão fundamento a algumas das mais importantes diretrizes curriculares aprovadas em 2014 pelo CNE - Conselho Nacional de Educação .As novas diretrizes acabaram de entrar em vigor a partir de 2016, com o objetivo de oferecer aos graduandos, além de aptidões técnicas, " formação acadêmica generalista, humanista, crítica, ética e reflexiva " - para que, na profissão, possam atuar como " produtores intelectuais e agentes da cidadania ". Pois esse é, também, o objetivo que justifica e impulsiona o " Repórter do Futuro ", nos seus limites de atividade complementar aos cursos de Jornalismo. A maturação do projeto ao longo de duas décadas permite, até, a ousadia de afirmar que, em suas linhas gerais, as novas diretrizes do CNE para os cursos de Jornalismo propõem o que está na essência da estratégia pedagógica do " Repórter do Futuro" : a eliminação da dicotomia "teoria x prática". "
    Quanto á alocução exagerada do queridíssimo amigo do peito Audálio Dantas ( também já falei com ele sobre isso ), acho mesmo que apontou suas armas para o lado errado . Ao invés de fazer a " lição de casa " e estudar o objeto da cerimônia ( os porquês da Abraji considerar o PRF relevante ) , resolveu proferir uma declaração pública de estima por mim . Justo eu que tenho por ele gratidão eterna e amor incondicional. Quem me conhece, saberá avaliar o tamanho e a natureza do meu constrangimento.
    Mas ainda vou descobrir o pulha da Abraji ( quase certo tratar-se de um outro querido amigo batizado Guilherme Alpendre ) que armou essa cena de amor explícito entre dois homens já avançados na idade e perante uma plateia qualificada de " espiões de Deus ", os jornalistas de referência do nosso País.
    Quem se interessar mesmo por esta história que continua, prepare-se para um textão que acontecerá, um dia, pois a coisa começa em julho de 1970 com os calouros da Escola de Comunicações e Artes da USP e os diretores do Centro Acadêmico Lupe Cotrim ( gestões 71, 72, 73 e 74 ).

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