30/06/2017

Para Dimmi Amora, ler os clássicos é essencial para escrever reportagens de fôlego

Entre os prediletos do jornalista, estão Gabriel García Márquez e John Hersey



Por Beatriz Sanz
Em um mundo onde, cada vez mais, as informações chegam através de tweets e memes no Facebook, os jornalistas lutam para fisgar os leitores com textos mais longos, o que de acordo com Dimmi Amora não é impossível, pois as pessoas ainda se encantam com boas histórias.


No curso "Texto para reportagem de fôlego", realizado no 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, o jornalista fez questão de nos desafiar: o que determina o tamanho exato da história que podemos contar? Segundo ele, a apuração.

“Muitas vezes você vai se deparar com um documento oficial de 130 páginas, mas você só vai usar duas linhas de tudo aquilo e será o que se destaca”, afirma. Para Dimmi, se aprofundada, a apuração leva ao encontro das “rugosidades”, que são a quebra de um padrão estabelecido onde um fato importante pode estar escondido.

Por isso, para utilizar bem os dados dentro de um texto longo, o jornalista não deve amontoá-los em um único parágrafo, já que o leitor pode acabar se confundindo diante de tantos números. O instinto para encontrar essas deformidades dentro dos dados também não nasce com o repórter. Dimmi explica que é preciso treinar o olhar e a mente para não deixar que essas informações passem em branco, entretanto, livros e até as dificuldades durante a apuração podem auxiliar nesse treinamento.

    Criador da Agência iNFRA e um dos jornalistas mais premiados do país, Dimmi dá uma dica essencial: "depois de feita a apuração, resuma a história que deseja contar em quatro linhas para depois transformá-la em uma grande reportagem". Segundo ele, é durante o processo da escrita que o repórter precisa escolher um narrador, já que é ele que conduzirá o texto. Além disso, o autor também não pode fazer mudanças bruscas no ritmo do texto, pois isso afasta o leitor.
    Para prender a atenção do público na internet, um espaço onde sempre se está sujeito à distração, uma saída, de acordo com o jornalista, é a criação de reportagens multimídias. Dimmi citou o exemplo da Snow Fall, que é considerada a primeira reportagem multimídia do mundo feita pelo jornal americano The New York Times, e o projeto A Batalha de Belo Monte, que ele realizou enquanto ainda trabalhava na Folha de S. Paulo. Uma boa descrição auxilia ainda na criação da verossimilhança, pois muitas vezes os fatos narrados podem parecer inacreditáveis. "Eu não critico quem coloca a opinião, mas é preciso se esforçar pela neutralidade", ressalta, na medida em que considera que opiniões dentro de uma grande reportagem são inconsistentes e que ao invés disso, o repórter deve optar por fazer descrições dos eventos e dos personagens.
    Por fim, ele propôs uma atividade com os alunos utilizando três textos do escritor e jornalista colombiano Gabriel García Márquez. Mas, neste caso, os estudantes tiveram que fazer o oposto de tudo o que foi dito: o desafio foi reduzir algumas crônicas de Márquez a tweets.

    O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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