29/06/2017

Plataformas independentes desafiam o monopólio do eixo RJ-SP


Os idealizadores dos projetos Meus Sertões, Marco Zero e Livre.jor compartilharam os percalços para expandir e democratizar o centro de produção jornalística no País

Por Maria Vitória Ramos

Com o avanço da tecnologia, os custos de produção e distribuição de informações foram reduzidos, permitindo a consolidação de novos negócios independentes fora do polo comercial do País. Esse tema foi debatido na mesa Novo Jornalismo fora do eixo RJ-SP, durante o 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.

Após ser demitido em um corte coletivo no Jornal da Tarde, Paulo Oliveira decidiu se afastar de vez da mídia tradicional e perseguir sua paixão: contar as histórias das pessoas esquecidas. Criou o projeto Meus Sertões e trocou de meio definitivamente. “Jornal para mim acabou, não tem mais função social. Trabalhei por muito tempo com uma listinha de nomes que não podia mencionar embaixo do meu computador”, relembra Oliveira.

Hoje, ele busca apresentar o sertão brasileiro com uma nova narrativa, distante do estereótipo da família raquítica fugindo da seca, que povoa o imaginário dos paulistas e cariocas. Apesar do caráter regionalista de suas publicações, ele garante que, com a internet, não existe mais uma esfera local. “Os meus temas são universais. Falo da cultura moura, negra, branca e indígena, e atraio muito acesso de outros estados”, conta.

No nordeste, a Marco Zero Conteúdo, 
criado pela jornalista Carol Monteiro, é pioneira no desenvolvimento do jornalismo investigativo na região. Voltado especialmente para a capital e o interior de Pernambuco, o coletivo está estruturado em três pilares: Direitos Humanos, direito à cidade e democracia e liberdade. 

Em dois anos, a iniciativa já publicou mais de 400 conteúdos. Durante a eleição de 2016, firmou parceria com a Agência Pública no projeto de checagem Truco no Congresso, em que foram responsáveis pelo fact-checking das candidaturas para a Prefeitura de Recife. O projeto isolou-se dos espaços tradicionais, mas esse fato teve um contraponto positivo: a organização ganhou credibilidade dentre os jovens e foi o único veículo de comunicação autorizado a entrar nas ocupações das escolas no estado.

Para criar a Marco Zero, Monteiro estudou os mais diversos projetos de jornalismo independente que surgiam no País, à época, tentando encontrar a tão procurada fórmula para viabilizar financeiramente esse tipo de empreendimento.

As dificuldades de conseguir rentabilizar o modelo de negócio aflige também outro projeto. “Trazemos mais dúvidas acerca do financiamento do que respostas”, anunciou um dos criadores do Livre.jor, João Guilherme. O modelo que persiste no veículo é a ideia de não cobrar do consumidor final.

Situado em Curitiba, o Livre.jor é um portal de jornalismo fundamentado a partir de dados públicos e pautado principalmente pelo Diário Oficial da região. No ano passado, lançou o desafio de fazer uma reportagem por dia tendo como base a Lei de Acesso à Informação - iniciativa semelhante ao paulista Fiquem Sabendo, do jornalista Leo Arcoverde.

O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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