29/06/2017

“Se é biografia jornalística, ficção nunca”, ressalta Plínio Fraga

Carlos Maranhão (à esquerda) e Plínio Fraga (à direita) discutem estrutura de biografias. Mediação de Thiago Herdy (centro). Foto: Alice Vergueiro
Por Caroline Bueno de Oliveira

As biografias passaram a ser escritas por profissionais do jornalismo há poucas décadas no Brasil. O ambiente, que antes era dominado por historiadores, ganhou contornos jornalísticos tanto na apuração quanto na construção da narrativa, definida como “mais fluida” pelo jornalista e biógrafo Plínio Fraga, no 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. O tema foi discutido na mesa “O desafio de escrever biografias”.

Segundo Fraga, autor da biografia Tancredo Neves, o príncipe civil, não só as técnicas mudaram, mas também o objetivo da obra ao narrar um acontecimento ou a história de um personagem. Os historiadores partem do eixo histórico do acontecimento, enquanto jornalistas “têm a função de deixar o texto menos técnico”.

Um dos exemplos citados por Fraga é o livro O paciente: o caso de Tancredo Neves, em que o autor e médico Luís Mir narra o caso a partir de uma visão da medicina, permeado de conceitos técnicos que deixam a escrita menos arejada.

Ficção ou realidade?

Carlos Maranhão, jornalista e autor de Roberto Civita, o dono da banda, entende que as biografias estão no escopo do trabalho jornalístico. “A forma pode ser um traço de quem escreve, mas precisa sempre partir de fatos”, conclui o jornalista que trabalhou mais de 40 anos na Editora Abril.

“Se a biografia é jornalística, deve se esperar a realidade, a ficção nunca”, afirma Fraga. O autor, que já passou por veículos de comunicação como Folha de S. Paulo e revista piauí, acredita que há uma confusão entre as técnicas jornalísticas, como a fluidez do texto e a construção de uma forma que traga surpresas para o leitor, e as ficcionais.

Mesmo as memórias das fontes, que são reconstruídas constantemente a partir do presente, devem ser cruzadas e comprovadas de acordo com a apuração. “Não posso trabalhar somente com uma fonte, eu devo reconstruir relatos a partir de vários registros documentais e testemunhais para checar, contradizer e contrapor”, entende Fraga.

“Claro que não é a versão verdadeira, no entanto, ainda está longe de ser uma ficção. É a história mais aproximada possível da realidade”, conclui o autor de Tancredo Neves, o príncipe civil.

Lições da biografia para o Jornalismo

O gênero biografia pode trazer para o jornalismo várias lições. O tempo de apuração é um deles. “Os elementos que esse boom de biografias pode dar ao jornalismo é profundidade, tempo de investigação e relatos articulados”, entende Fraga, que enxerga o tempo de trabalho como ponto crucial para um bom trabalho jornalístico.

“Eu acho errado profissionais do jornalismo acreditarem que o texto é apenas uma relato de fatos a partir de um recorte específico”, conclui Fraga.

O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Nenhum comentário:

Postar um comentário