01/07/2017

Como se tornar um bom repórter fotográfico, segundo Marlene Bergamo e João Wainer

Um pouco de coragem, ‘cara de pau’ e respeito pelo fotografado fazem parte das dicas

Marlene Bergamo (Folha de S.Paulo) e João Wainer (documentarista) no painel "Profissão: Repórter Fotográfico". Foto: Alice Vergueiro.

Manter um olhar estrangeiro, ser “cara de pau” e adquirir experiência. Essas são as principais dicas dos fotógrafos que participaram da mesa “Profissão: Repórter Fotográfico”, durante o 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, neste sábado (1).


Estavam presentes na palestra Marlene Bergamo, repórter fotográfica da Folha de S.Paulo, João Wainer, documentarista e ex-editor do TV Folha, e Elvira Alegre, ex-repórter fotográfica da IstoÉ. A mesa foi mediada por Elvira Lobato, ex-repórter da Folha.

“Você precisa ir, arriscar e errar”, afirmou Marlene sobre a profissão. Para ela, tanto repórteres quanto repórteres fotográficos precisam ser “cara de pau”. No início de sua carreira, pedir uma lente emprestada para um experiente fotógrafo da Folha foi decisivo para que ela conseguisse seus primeiros trabalhos fotojornalísticos.

Após um período de freelas para a Folha, Marlene passou alguns anos fotografando cadáveres na madrugada para o extinto Notícias Populares. Lá, ao utilizar fotografia de longa exposição nas cenas de crime, ela conseguiu diferenciar seu trabalho do que costumeiramente era feito por outros fotógrafos da área.

A mesma “cara de pau” fez Wainer iniciar a sua carreira, Aos 16 anos, já decidido a ser fotógrafo, foi até o jornal Estadão e pediu uma chance. Conseguiu uma vaga no caderno de compras. Algum tempo depois, com a mesma tática, conseguiu entrar na Folha.

Além da desinibição, Elvira Alegre afirma que também é preciso um tanto de coragem em alguns momentos. Ela foi a única pessoa a fotografar o velório e o enterro de Vladimir Herzog, repórter que, durante a Ditadura Militar brasileira, sofreu tortura e foi assassinado na sede do DOI-Codi de São Paulo.“Ninguém tinha coragem [de fotografar o velório do Herzog]. Todo mundo achava que seria o próximo [a ser morto]”, diz Alegre.

Segundo Wainer, essa era uma das características do fotógrafo André Liohn, o primeiro sulamericano a ganhar a Medalha de Ouro Robert Capa, uma das principais premiações de fotojornalismo. “O mérito do André Liohn era ser porra louca. Quando todo mundo parava, ele subia em comboio de rebelde na Líbia.”

Soma-se a isso tudo, de acordo com Marlene, o conhecimento preciso sobre o que se está fotografando, a proximidade para a foto e o respeito com o fotografado. “Quanto mais você estiver sentindo o cheiro, a dor da pessoa, melhor é.”

Para Marlene e Wainer, um último ponto essencial para a profissão de fotojornalista é o olhar de fora, estrangeiro e a indignação. A repórter fotográfica da Folha conta que passou anos fazendo fotos de assassinatos e, nem por isso, perdeu a raiva ao se deparar com situações de violência.

Por fim, segundo os fotojornalistas da mesa, só o tempo consegue construir um bom profissional. “O difícil não é fazer uma foto boa. O difícil é fazer uma foto boa todo dia”, afirmou Wainer.

O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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