01/07/2017

Entenda os bastidores do furo da delação da JBS

Repórter de O Globo, que apurou reportagem com Lauro Jardim, conta como foram as três semanas antes da divulgação

"Nossa missão como jornalista é tirar a poeira debaixo do tapete", disse Guilherme Amado. Foto: Alice Vergueiro
Por Ana Paula Bimbati e Fidel Forato

No dia 17 de maio, às 19h15, o país parou. O assunto era o mesmo entre as pessoas. O jornal O Globo acabava de divulgar uma reportagem sobre a delação dos donos da JBS. Não era uma simples entrega. A matéria trazia, entre outros escândalos, que o presidente Michel Temer havia dado aval para comprar o silêncio de Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara. 

A notícia abalou ainda mais a atual crise política e ganhou espaço no 12º Congresso da Abraji, no painel “’Não renunciarei!’: o furo da delação da JBS”. O repórter Guilherme Amado, do jornal O Globo, participou do processo de apuração ao lado do jornalista Lauro Jardim, e contou os bastidores do furo na discussão mediada por Andreia Sadi, da GloboNews.

Foram três semanas de apuração até a publicação da reportagem. “Não recebemos de mão beijada. Tínhamos três notas: Temer, Aécio (pedindo R$ 2 milhões a Joesley Batista, um dos executivos da JBS) e Guido Mantega (negociando propina para o PT)”, explicou Amado. A divulgação da matéria só aconteceu no dia 17, depois que o ministro do Superior Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, havia homologado a denúncia.

“Foi insuportável esperar esse tempo. Olhava até com desapego para quem acompanhava a Reforma da Previdência”, disse Amado, já imaginando que a repercussão do caso tiraria do radar uma das propostas polêmicas do governo Temer.

O jornalista relatou também que a primeira ligação sobre a delação chegou para Lauro Jardim. Só depois disso ele entrou na história, passou a checar as informações e chegou em outras três fontes. Amado não sabe quem, nem quantas pessoas Jardim ouviu antes da publicação da reportagem. “Eu não tinha noção de que aquilo resultaria na fala do presidente: ‘Não renunciarei!’.”

Entre os detalhes da apuração, Amado cita que Joesley ia dirigindo seu carro, sozinho, para realizar as negociações da delação na Procuradoria-Geral da República (PGR) e que seus advogados também entravam pelas vias comuns do prédio. Mesmo assim, existia muita tensão. Principalmente, porque o delator iniciou as negociações a partir da tão comentada gravação com o presidente Temer e outras gravações com políticos importantes de reserva.


O jornalista também relatou que só teve acesso ao áudio e ao vídeo, onde aparece Rocha Loures recebendo a mala com R$ 500 mil, dois dias depois da divulgação da reportagem. “Publicamos sem ouvir o áudio, mas baseados em entrevistas e documentos”, disse Amado sobre a apuração.

Questionado sobre o que significam os recentes fatos no cenário político, como, por exemplo, a volta de Aécio Neves ao Senado e a liberdade a Rocha Loures ocorridas nesta semana, o jornalista afirma que “perdeu-se a previsibilidade do país”.

Ainda assim, Amado acredita que a principal missão do jornalista continua uma: “tirar a poeira de debaixo do tapete”.
O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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