01/07/2017

“Faria tudo de novo”, afirma Janot sobre denúncia contra Temer

Procurador-Geral da República reiterou que a “caneta” ainda está em suas mãos até 17 de setembro, quando deixa o cargo

Rodrigo Janot, Procurador-Geral da República, durante painel no 12° Congresso da Abraji. Foto: Alice Vergueiro.
Por Matheus Moreira

Nas últimas semanas, o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, protagonizou momentos críticos no âmbito político e penal das investigações decorrentes da Operação lava Jato, na denúncia feita contra o presidente da República Michel Temer. Ele também foi o principal articulador de acusações que levaram políticos do alto escalão à prisão, como Eduardo Cunha e o ex-tesoureiro do PT, Delcídio do Amaral. 

Neste 1º de julho, durante o 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, o procurador afirmou que não se arrepende e que “faria tudo de novo”, quando questionado sobre as investigações contra Temer.

Em maio de 2017, com o acordo de delação premiada da JBS, o procurador-geral garantiu “perdão judicial” aos irmãos e donos da empresa, Wesley e Joesley Batista. A opinião pública reagiu à “imunidade”, mas, conforme enfatizou Janot, o acordo acabou revelando o envolvimento de políticos de alto escalão em esquemas de corrupção com os executivos.

A partir de ações acompanhadas pela Polícia Federal, com base nas informações obtidas na delação dos irmãos Batista, ficou claro, de acordo com o procurador, que há indícios de atos ilícitos praticados por Michel Temer. O presidente criticou a denúncia de Janot em pronunciamento oficial no dia 27 de junho, porém, diante da plateia, neste sábado, o procurador as rebateu e apontou equívocos nos juízos. “Quando se oferece uma denúncia, apresenta-se indícios que sejam fortes o suficiente para haver instrução penal
[fase de produção de provas]”, disse.

A denúncia a Michel Temer

Janot reiterou, mais de uma vez, não ter interesses além da “aplicação da lei” ao denunciar o presidente. Com sutileza e bom humor, defendeu-se das acusações do pronunciamento de Temer explicando os processos que levam uma denúncia a ser oficializada pela PGR.

Para o procurador, as gravações e informações obtidas a partir da delação dos executivos da JBS deixam evidente uma narrativa que corrobora a hipótese de Michel Temer ter cometido atos ilícitos, ainda que passivamente. Um ponto chave que ratifica a participação daquele que ocupa o mais alto cargo público do Brasil nas negociações de propina é a sua declaração de confiabilidade em Loures. Michel Temer disse, como mostram os áudios obtidos pela PF, que aquele era uma pessoa de sua “extrema confiança”. “Se isso não é indício para uma denúncia [...] eu não sei o que é”, brincou o procurador.

A narrativa é tão sugestiva que não pode ser ignorada. Esse foi o critério utilizado por Janot na hora de decidir pela denúncia. Outro parâmetro foram os nomes relacionados na delação da JBS.

Questionado se não teria sido muito benevolente ao conceder perdão judicial aos delatores da JBS, Janot propôs uma inversão de cenários para que se pudesse compreender os motivos que levaram o Ministério Público a fechar o acordo. Ele apontou que, caso não houvesse garantido um acordo como este, não teria obtido acesso aos nomes delatados e, consequentemente, acabaria permitindo que um crime em curso seguisse ativamente.

E agora?

O procurador explica que há, ainda, duas linhas de investigação em curso na PGR contra Temer, com complexidades singulares e em estágios diferentes, uma delas é por organização criminosa.

O mandato de Rodrigo Janot chegará ao fim em 17 de setembro de 2017, contudo, foi contundente ao afirmar: “a caneta [da PGR] estará em minhas mãos até o dia 17”.

O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Um comentário:

  1. Existe possibilidade de assistir gravação completa da entrevista do Rodrigo Jano, feita pela Renata Lo Prete? Se afirmativo, como e/ou onde? Paulo Dirceu Dias - Sorocaba - SP - paulodias@pdias.com.br. Antecipo agradecimentos pela informação que possam prestar.

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