01/07/2017

Jornalistas criam modelo de cooperativa após falência de jornal argentino


Autogestão e transparência nos negócios são pontos chave para o sucesso do Tiempo Argentino
Javier Borelli falou sobre o processo de assumir a direção do jornal e avaliou o primeiro ano desta experiência. Foto: Alice Vergueiro
Por Jeniffer Mendonça

Após a eleição de Mauricio Macri à presidência da Argentina, em 2015, a direção do periódico Tiempo Argentino deixou de pagar os salários aos trabalhadores e abandonou a empresa. Os jornalistas do veículo, então, decidiram tomar conta da redação e há um ano atuam organizados em uma cooperativa com cem profissionais.
Durante o 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, da Abraji, neste sábado, 1, o presidente da cooperativa Por Más Tiempo e editor do Tiempo Argentino, Javier Borelli, descreveu o processo e os desafios da experiência. "Tivemos que dormir na redação para impedir o fechamento e passamos a fazer atividades que não eram jornalísticas", contou.

O Tiempo Argentino pertencia ao Grupo 23, empresa favorável ao governo de Cristina Kirchner. Como não há uma lei que regule o repasse de publicidade na Argentina, o periódico dependia dos recursos da gestão kirchnerista.

Com a alternância presidencial e o cenário de crise econômica, as demissões e o não pagamento de direitos trabalhistas resultaram em marchas de comunicadores em protesto com a campanha #NoAlVaciamento (Não ao Esvaziamento, em tradução livre).

Em janeiro de 2016, os trabalhadores do Tiempo e de outros veículos do Grupo 23 realizaram um festival de música para arrecadar fundos. "Fizemos uma pesquisa para saber se as pessoas queriam que o jornal continuasse e 500 [pessoas] responderam que sim. Cerca de 25 mil pessoas foram ao Parque Centenário em Buenos Aires e foi o maior evento em meio às férias", disse Borelli.

Assim, os jornalistas seguiram trabalhando, dividiram o dinheiro arrecadado e destinaram metade da verba para dar continuidade às publicações impressas naquele período. Em março, foram esgotados os 35 mil exemplares da edição especial sobre os 40 anos do golpe militar, vendidos a 20 pesos, o equivalente a R$ 6.

Depois da campanha, os trabalhadores criaram um conselho, em que discutiram como seria a nova redação. A cooperativa, modelo comum em outras áreas, foi a possibilidade escolhida por ser mais democrática, segundo o palestrante. "As funções administrativas e jornalísticas passaram a ser divididas e de responsabilidade compartilhada", revelou. Javier foi eleito presidente, mas também trabalha como editor.

Além disso, pensaram em modelo de assinaturas e sociedade. Os sócios do Tiempo Argentino recebem "benefícios de agradecimento", como livros, entradas de cinema, descontos em oficinas e uma revista trimestral exclusiva, a Revista T. Atualmente, o veículo tem 2500 assinantes.

O jornal aposta na transparência no modelo de negócios. "Não temos paywall porque acreditamos que a fidelização dos leitores se dá quando eles leem e entendem o projeto, assim aumenta o número de sócios que se identificam", pontuou.

"Nós aceitamos publicidade desde que não interfira nos princípios do Tiempo. Sempre avisamos os leitores que aquele anúncio não é alinhado ao editorial", complementou Javier.

Os salários dos trabalhadores são decididos por acordo e têm pouca disparidade. O objetivo é minimizar a hierarquização e as diferenças salariais na redação.

"Esse modelo talvez não seja aplicado em qualquer lugar porque vivemos um momento específico, mas queremos que o Tiempo se transforme em uma referência de modelos autogestionados, porque esse formato coloca a informação acima de interesses", concluiu o jornalista.

O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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