01/07/2017

Livro-reportagem: território nobre e caminho espinhoso

Dificuldades financeiras, necessidade de conciliar as pesquisas com o trabalho nas redações e o exaustivo trabalho de investigação desafiam os jornalistas que se dedicam a essa empreitada 

Alan de Abreu (Diário da Região), Rubens Valente (Folha de S.Paulo) e Leandro Demori (Piauí/Abraji) em painel sobre a produção de livro-reportagem. Foto: Alice Vergueiro.
Por Jeniffer Mendonça

Premiações, renome na área e credibilidade são os resultados da produção de grandes reportagens de impacto social. Mas o caminho percorrido até o lançamento de livros está muito além do glamour, é o que apontaram os repórteres Allan Abreu, Leonardo Demori e Rubens Valente, no painel "Livro-reportagem: território nobre do jornalismo", neste sábado (1), durante o 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.

O pesado trabalho de pesquisa é essencial para a construção de um bom livro-reportagem. Rubens Valente, da sucursal de Brasília da Folha de S. Paulo, viajou a dez estados brasileiros e aldeias, entrevistou mais de 80 pessoas e se debruçou por arquivos e registros inéditos para lançar, em abril deste ano, o livro "Os fuzis e as flechas: História de sangue e resistência indígena na ditadura", que investiga as mortes de índios de diversas etnias e as omissões de militares entre 1964 e 1985.

A relação com o assunto começou desde cedo, quando a família havia se mudado do Paraná ao Mato Grosso do Sul, em 1982, onde conheceu e teve contato pela primeira vez com grupos indígenas. A partir das histórias compartilhadas durante os anos e a abertura dos primeiros documentos elaborados pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), em 2008, Valente sentiu a necessidade de recontar o que houve com essa parcela da população no período militar do Brasil.

A questão da documentação também foi essencial e, ao mesmo tempo, um desafio para Allan Abreu, repórter especial no Diário da Região (Ribeirão Preto - SP). Autor de "Cocaína: a rota caipira", ele viajou para mais de 20 municípios brasileiros, visitou países como Bolívia e Peru, entrevistou cerca de 70 pessoas e reuniu aproximadamente 80 mil documentos sobre o narcotráfico no centro-sul do Brasil. "A maior dificuldade foi conseguir cruzar operações distintas e analisar nexos de proximidade para criar a narrativa, já que não existe um material consolidado sobre isso", relatou.

O que tornou o quadro ainda mais complicado é o fato de o interior de São Paulo e o triângulo mineiro serem regiões planas e repletas de cana-de-açúcar, com milhares de pistas clandestinas que são ponto de pouso para as aeronaves do tráfico internacional.

A afinidade com o tema e a grande variedade de fontes foram pontos importantes para o processo de execução do livro. Contudo, o repórter precisou conciliar esse projeto aos compromissos da redação do jornal. "Tive que conversar com as pessoas do meu trabalho sobre algumas viagens, e estou há muito tempo sem férias", contou.

Por outro lado, o editor-assistente da revista Piauí, Leandro Demori, compartilhou as dificuldades de dar início a uma obra de grande magnitude como essa sem estar vinculado diretamente à grande imprensa: "em 2008, eu era freelancer e não ter um veículo de comunicação por trás dificultava o processo. Uns anos depois tive contato com a editora, mas o adiantamento que eu ganhei usei para ir à Sicília [Itália] a fim de reunir mais documentos".

Ele se dedicou à trajetória do mafioso italiano Tommaso Buscetta, um dos principais nomes da ascensão do grupo criminoso Cosa Nostra, e seu principal delator, que chegou a morar no Brasil e ser preso pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Seu livro é intitulado "Cosa Nostra no Brasil, a história do mafioso que derrubou um império", e foi lançado em novembro passado.

O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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