01/07/2017

Para editor do Washington Post, jornalismo de qualidade é essencial para manter democracia viva

Martin Baron veio ao Brasil para debater democracia, jornalismo e inovação

O editor-chefe do Washington Post falou sobre a mudança na configuração do jornal após o periódico ser comprado por Jeff Bezos, da Amazon. Foto: Alice Vergueiro

Por Caroline Oliveira e Matheus Moreira

“Estamos aqui para fazer nosso trabalho”. A fala é de Martin Baron, editor do jornal estadunidense Washington Post, que encerrou o ciclo de palestras e laboratórios do 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji. O jornal que edita desde 2013 carrega o peso simbólico do slogan que deu nome à mesa nesse 1 de julho: A democracia morre na escuridão.  
Apesar de parecer pessimista, Baron e as equipes por trás do jornalismo do Washington Post “têm obsessão por jornalismo de qualidade”, entende o presidente da Abraji, Thiago Herdy. Para o editor, focar esforços e recursos na prática de jornalismo de qualidade é essencial para manter vivos os ambientes democráticos. 

Durante o encontro, em que Baron foi entrevistado pelo jornalista e fundador do primeiro serviço de notícias em tempo real brasileiro, Rosental Calmon Alves, o editor pontuou as dificuldades na cobertura das campanhas presidenciais dos EUA que levaram o republicano Donald Trump à Casa Branca. 

Para ele, compreender que o jornalismo mudou com o acréscimo das novas tecnologias também é parte importante do processo de renovação da profissão. Ele aponta o uso de vídeos, por exemplo, como uma linguagem nova, passível de exploração e que tem muito a contribuir.  



Além disso, o Washington Post, de acordo com o próprio Baron, está se tornando uma empresa cujo foco está direcionado para tecnologia e informação, para além de ser “apenas um jornal”. Esse movimento se torna factível ao observar a contratação de 30 novos funcionários para reforçar os times de produção de vídeo do WP, novidade anunciada durante o evento.

O que é Spotlight e por que isso importa

Em julho de 2001, quando chegou ao The Boston Globe, o jornalista Martin Baron talvez não soubesse que a equipe de reportagens investigativas que passaria a liderar produziria tamanho impacto além das fronteiras estadunidenses, chegando a incomodar o Vaticano. Os próximos 12 meses renderiam mais de 600 matérias abrangendo um esquema que acobertava padres acusados de abuso sexual infantil.

Ainda que a cobertura realizada pelos cinco membros originais da editoria de reportagens especiais do Boston Globe, chamada Spotlight, tenha se estendido para além dos 12 meses que renderam ao grupo um Pulitzer, “cada matéria era vista como qualquer outra”, explicou Martin Baron à reportagem.

Como produto do trabalho desenvolvido pela equipe (e que seguiria por meses), o cardeal responsável pelo Arquidiocese de Boston, Bernard Francis Law, enviou seu pedido de demissão ao Vaticano em 2002, mas manteve-se cardeal e chegou a participar do conclave papal de 2005..

Vida pessoal da equipe Spotlight


No filme “Spotlight: Segredos Revelados”, que conta a história da equipe de repórteres liderados por Baron durante os primeiros meses de apuração dos abusos cometidos por membros do clero, a vida pessoal dos repórteres e do próprio Baron são abordadas de forma intrínseca, mostrando como o trabalho afetou outras esferas de suas vidas.

Ao ser questionado sobre o impacto da apuração dos casos de abuso sexual infantil na vida da equipe do Spotlight, Baron contou à reportagem que mesmo com um tema sensível sendo abordado cotidianamente “aquelas eram reportagens normais. Era uma história importante e nós sabíamos disso [...] outros jornalistas se juntaram à equipe depois do primeiro ano, e foi difícil para a família deles”, concluiu.

O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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