01/07/2017

Redações precisam ter mentalidade de startup, dizem especialistas

Em painel sobre mudanças nas redações digitais, editores de O Globo e Correio de Salvador destacaram suas medidas para renovar processos e ganhar fôlego no online

Juan Torres (Correio) fala em painel sobre mudanças na redação digital. Foto: Alice Vergueiro.
Por Karina Balan

Dizer que os jornais precisam adaptar seus modelos de negócio ao digital soa datado, mas muitas redações ainda engatinham para implementar processos compatíveis com os hábitos de consumo de informação no ambiente online. Em painel sobre as mudanças nos fluxos e cargos das redações no 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, da Abraji, neste sábado (1), as startups foram apontadas como uma boa fonte de inspiração para os veículos.


Maleáveis às tecnologias e com esquemas de organização mais horizontais, as startups fazem com que colaboradores se envolvam em diferentes etapas de um projeto e desenvolvam habilidades diversas. Num modelo similar, os jornalistas também têm que estar preparados para um novo grau de autonomia. “O repórter que está na rua, fazendo um live no Facebook ou Stories, acaba atuando como um editor de si, pois é ele quem vai publicar”, avalia Juan Torres, editor de inovação do Correio de Salvador.

Para estar em linha com a lógica do digital, o Correio passou a promover encontros sobre diversos assuntos, que vão de diversidade à inovação, bem como sessões de compartilhamento de leituras e oficinas de vídeo. “Vimos que havia muitos jornalistas que sabiam de muitas áreas e técnicas diferentes”, conta Torres. “Estes conhecimentos costumavam ficar intocados, então decidimos criar um ambiente de troca”.

Ascanio Seleme, diretor de redação d’O Globo, comentou os principais efeitos da integração entre os jornais O Globo, Extra e Expresso, que aconteceu em fevereiro deste ano. “Até então, os editores chegavam na redação às 15h e se preocupavam principalmente em fechar o impresso. Com o digital, entendemos que o editor precisa estar lá desde a manhã e estar por dentro de todas as plataformas”.

A mudança foi inspirada em modelos adotados pelo Washington Post, New York Times e Boston Globe, onde os jornalistas passaram a produzir e distribuir conteúdo multiplataforma para os três jornais.

Mídias Sociais

As redes sociais também contribuíram para a mudança. Elas não podem mais se resumir a um ambiente de distribuição, e os veículos devem encontrar novas formas de interagir dentro delas. No Facebook, por exemplo, o Correio busca se envolver nas discussões em comentários.

“Em posts com comentários machistas, por exemplo, frequentemente acabamos intervindo. Queremos nos colocar como parte da solução dos problemas, e não ser só um empurrador de conteúdo”, explica Juan Torres.

O maior erro é tentar incorporar os mesmos processos do impresso ao digital. De acordo com Ascanio, o material mais relevante sempre deve ser chave para os “horários de pico do site”. “Nesses horários, temos necessariamente que ter material novo que possa reter eyeballs”, diz. Ele explica que o tempo de leitura médio no site d’O Globo é de 3 minutos, e que o objetivo é chegar a sete nos próximos meses.

Juan, por sua vez, critica os métodos atuais de mensuração. “Ainda estamos muito amarrados na ideia de que o desempenho de uma matéria está no número de page views, que geralmente vêm das redes sociais, mas o nosso leitor fiel não vem do Facebook ou do Google”, pondera.


O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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